Compartilho Meus Umbrais

Escrevi Umbrais enquanto vivia em Montevidéu, cidade de gente de bem e que muito me ofereceu.

Não se trata de textos autobiográficos mas, certo, algumas paragens se escondem entre as linhas dos contos.

De certo modo, Umbrais representam para mim um rito de passagem do meu eu adulto, mãe, filha e mulher.

Obrigada por me acompanhar.

Se quiser, por favor me deixe saber sua opinião.

6 de outubro de 2011

UMBRAIS

Sobre el prefacio ya se dijo: posterior, precede; se excluye del libro y allí se encuentra; el prefacio tiene al autor por autor, alguien que “extramuros” se identifica con el lector; un mismo autor, lector – auto(r)lector de un mismo libro, y como un salvoconducto, inicia una complicidad más allá de la obra y su clausura.

Lisa Block de Behar
Al Margen de Borges

O que se segue são quatorze contos curtos cujo denominador comum são experiências acumuladas dentro do âmbito da saúde, seja em um consultório médico, em um hospital ou alhures, desde a ótica pessoal do profissional ou do ponto de vista do paciente. Nascimento, sofrimento e morte perpassam quase todo o escrito, às vezes sob forma contemplativa, outras sob narrativa em primeira pessoa.

Os textos são independentes e possuem sustentação própria – assim espero. A ordem em que se encontram é apenas uma sugestão, não sendo necessário avançar de forma linear. Se o leitor se interessar por enveredar pela costura das narrativas e da trama de seus habitantes, permitir-me-ia aconselhar que caminhasse ao próximo umbral.




Moro em um apartamento pequenino, que herdei de minha falecida avó. Talvez os móveis tenham crescido nestes últimos setenta anos ou quiçá o espaço tenha encolhido como resultado da especulação imobiliária que nos circunda. O fato é que não havia mais lugar livre entre a cama, o armário, a mesa, a cadeira, a geladeira e o fogão. E o banheiro também.

Para combater o problema, desfiz-me do supérfluo e hoje guardo apenas o indispensável. Abdiquei do título de maior colecionador de revistas sobre medicina dirigidas ao público leigo e doei os cinco aparelhos de jantar e de café que pertenciam à família. Também não sou mais o proprietário do maior número de copos de geléia de mocotó ou de latas de biscoito decoradas. Abri mão da coleção de discos de vinil, dos livros escritos em papel, dos cabides de plástico e do armário. Tudo o que me pertence está organizado em caixas.

Minha antiga biblioteca ocupa cinco caixas de sapatos de homem. Em cada uma arquivei uma folha – duas páginas - de cada livro que passou pela minha vida e me transformou. O resto faz parte do passado e me tomaria um lugar de que não disponho. Abro esta caixa com deferência e amor. De dentro exala sempre um aroma diferente, uma nudez distinta – dependendo da folha que me chama. Somos íntimos confidentes, guardo o segredo de sua gramatura e a textura do papel, das letras organizadas em palavras que criam um sentido próprio. Ela cala por sua vez o segredo do meu toque, das minhas fantasias e do que pensava que era enquanto a descobria. Fechadas, são certamente as caixas mais tímidas que possuo. Abertas, desvelam paixões e arrebatam, como tornados, sentimentos outrora assentados. São as caixas mais leves e de maior peso.

As letras do alfabeto encerram todo o universo. Letra por letra inaugura uma seção do dicionário, que contém o professor, o iletrado e a cultura oral. Unidas a outras letras abrem um feixe de significados de criação incessante, infinita. Uma equipe profissional encarregada de declamar todos os verbetes de todos os dicionários de todos os idiomas do mundo tampouco teria condições de abarcar o mar que é a combinação das letras do alfabeto. Cada novo bebê traz em si o potencial de novas conjugações do alfabeto e de novas interpretações das palavras.

Guardo quatro caixas de sapatos tamanho 33-34 para fotografias. Há fotos da família, dos amigos, das viagens realizadas, da decoração anterior do apartamento e dos transeuntes que passam pela janela do meu quarto. Certas pessoas conheço apenas através das minhas lentes.

Uma chuva nunca é igual a outra, e por isso as registro. Gosto quando o céu se tinge de gris e a luminosidade óbvia se quebra, divirto-me acompanhando pela janela do meu quarto o desfilar das capas e dos guarda-chuvas. Também me identifico com a vulnerabilidade dos desabrigados. Algumas pessoas me despertam a curiosidade pela capacidade de manter sua civilidade mesmo sob águas torrenciais. Desço para conhecê-las de perto, sem ser notado. As pessoas vêem apenas o que querem.

Os mantimentos da cozinha estão em caixas que antes guardavam botas de cano longo, pois são mais espaçosas. Para diferenciá-las das caixas mais importantes, eu as forrei com panos de prato – somam três ao total. A vida é um fluxo incessante de energia em estado puro e está em constante transformação. O excesso e o acúmulo criam a gordura, geram o desequilíbrio adiposo. Se para a partida definitiva não se leva mais do que o próprio corpo, então de que me serve armazenar? Pretendo ser imperceptível em minha saída, desapegado e ligeiro. Vou ao mercado quatro vezes por semana e compro essencialmente o que penso consumir no espaço temporal de dois dias, o que nunca é muito. O resto ao futuro pertence.

As caixas mais deliciosas guardam recordações vinculadas a uma determinada pessoa. Da última vez contei mais de trinta, de distintos tamanhos. Começo normalmente com uma caixa de sapato de medida 21-22; à medida que o vínculo se desenvolve transfiro o conteúdo para uma caixa maior, que pode chegar até a bota de cano longo ou o pé de anjo. Às vezes me engano e necessito retroceder. Meu limite é uma caixa por indivíduo.

Sou filho e neto único. Hoje sou o único membro que restou de toda a família. Pertenço a uma longa tradição de contadores de histórias - umas mais longas que outras. Minha mãe raras vezes terminou um conto, era sempre vencida pelo sono. Já meu pai gostava de contar sobre momentos épicos da História. Minha avó se recusava a falar e, com isso, tudo dito estava. De todos, meu avô era o mais generoso. Quantas cidades e quantas mulheres visitei sentado no seu colo. Ele me apresentou meus antepassados e me adiantou o que se esperava de mim. Conheci pessoas boas e outras nem tanto; principalmente, exercitei o ouvido e aprendi a agradecer.

Por força das circunstâncias, desde pequeno acompanhei meus avós e meus pais. Primeiro porque não podia estar só, depois porque eles não podiam estar sós. À medida que o tempo passava, mais freqüente se tornava a medicina em nossas conversas diárias. Muitos médicos habitaram as histórias da minha infância, seja pela proximidade do hospital do bairro ou profissionalmente. Sentado em poltronas que me deixavam com os pés flanando no ar, e mais tarde com as pernas firmes no chão - com esses olhos que a terra há de comer -, conheci muitas salas de espera, algumas secretárias e uns quantos doutores.

Em algum passado longevo cogitei seguir a carreira médica; hoje reconheço que minha inteligência não teria dado para tanto. Está por nascer o professor que tenha a capacidade de me transmitir as leis da genética. Continuo um grande admirador das distintas modalidades curandeiras e da medicina em particular.

Mais de uma vez decidi organizar uma pequena ceia com os médicos das minhas caixas. Abro os arquivos e redescubro histórias, idiossincrasias e aromas – reais e inventados. São quase todos conhecimentos platônicos, despojados de endereço e telefone. Alguns deixaram de ser matéria e convivem na memória de poucos. Normalmente emboto a iniciativa com uma noite regada à Merlot em frente à janela do meu quarto.

Algo passou que não sei explicar. Senti que a memória ameaçava trair-me e decidi oferecer ao papel uns quantos causos. Alguns foram vivenciados, outros testemunhados ou relatados em primeira pessoa. Separei caixas de memórias que acumulei ao longo dos anos e reinventei quatro indivíduos e suas respectivas famílias. Agarrei do lápis e do papel, e o resultado é uma pretensiosa ceia chinesa de quatorze textos e um comensal.

Os contos se interconectam – apenas se assim o desejar. Se for esse o caso, apresento a seguir alguns dos ex-quase convivas:

·         O doutor Música é O Especialista, pai da mulher do diplomata. Sua despedida e partida estão contados nos textos Música e A Paz do Descanso.

·         A filha de O Especialista é mãe de uma criança portadora de uma síndrome genética. Aparece em A Paz do Descanso, A Notícia, Ultra-Sonografia, Disfarces, Heranças & Lembranças e faz parte do casal anfitrião do e-mail de O Futuro e O Passado.

·         A Menina do Supermercado é filha do médico plantonista e da primeira mulher a ingressar na Academia Nacional de Medicina. É também a mãe da criança que se consulta com O Especialista. Paredes sintetiza brevemente sua vida. A Janela do Segundo Andar conta sobre sua vivência do carnaval e sobre a doença de seu pai, o médico plantonista.

·         O médico plantonista apresenta um dia de trabalho em Fim do Plantão.

·         A Segunda Sessão é um relato em primeira pessoa da mulher do médico de Fim de Plantão e mãe da Menina do Supermercado. A secretária em Ultra-Sonografia vem a ser sua irmã.

·         A cegonha de A Notícia entrega Mati & Cloti aos pais. O pai das meninas é o autor da carta manuscrita e encontrada em um livro na África pelo hóspede do casal de diplomatas – contado em O Futuro e o Passado.

À medida que avançava, assustava-me com a descoberta do parentesco e da relação entre as pessoas que surgiam. Escutei na memória um médico citar: cada gota d’água contém todo o universo. Pensei que talvez passasse assim com as pessoas também. O Especialista atendeu à filha da Menina do Supermercado, que por sua vez era filha de sua colega da Academia Nacional de Medicina. Algumas pessoas provavelmente se cruzaram nas ante-salas dos consultórios que frequentavam ou simplesmente foram contemporâneas de geração. O hematologista que atendeu o doutor Música era amigo do doutor Plantonista. A Menina do Supermercado se transformou em sua descendente, assim como todo pai e toda mãe – por força dos genes. Assim como cada um de nós poderá eventualmente alimentar a terra onde crescerá o tronco que mais tarde dará origem à cadeira fálica do consultório do obstetra – na visão de sua secretária. Eu me admirei ao compreender que todos estavam conectados de forma mais ou menos direta. Que todos eram em realidade UM. Porque somos todos UM.

Bem-vindo seja à minha casa.

MÚSICA

Dizem que o doutor chorou uma só vez durante todo o tempo em que esteve doente.

Todos tinham terminado de almoçar, os meninos foram ao cinema, e o senhor ficou na mesa com a filha escutando música.

Eu estava na cozinha lavando meus pratos, com um ouvido na sala de jantar. A filha perguntou se ele estava satisfeito. Depois, se ele queria ouvir rádio, mas ele preferiu escutar ópera. De repente escutei um choro sentido de homem, mas não tive coragem de me aproximar. Fico perturbada de ver homem desmoronar. O doutor perguntou clarinho:

-          Até quando vou poder escutar esta música, meu Deus?

Tudo sucedeu tão rápido; ele parou logo, tirou as mãos do rosto e pediu para a filha deixar ele descansar. Coisa estranha de compreender, a cabeça dos homens – o senhor já quase não saía de casa, mal aguentava ficar sentado, sofria de frio em pleno verão, mas temia pela música. Depois a menina me explicou que era Madame Butterfly, uma ópera que o doutor gostava muito.

Quando escutava música, o doutor se concentrava. Ele esperava os raios de sol na sala de estar, quando batia forte, deitava no sofá que ficava em frente à amendoeira e mandava eu cobrir ele com uma colcha leve, porque já estava muito fraquinho e tudo pesava. Depois fechava os olhos e pedia para não ser incomodado. Podia passar horas assim. Às vezes adormecia e quando acordava voltava para o quarto. Eu aproveitava para perguntar se ele não queria um suco de fruta, algo para beliscar. Mas ele não tinha muita fome.

Não era sempre a mesma música. Na hora da faxina eu via os discos fora de lugar. Parecia tudo nome estrangeiro, a madame dizia que era música clássica, barroca, romântica. Mas eu não via nada de romântico naquilo! Gosto é gosto, como bem dizia minha mãe.

A família morava longe, na casa vivia o casal só. Mas agora estava cheia, com todos os netos que vieram para ver o avô.

O doutor sempre foi gente fina, nunca deu trabalho, falava manso, pedia as coisas com educação, mas não dava confiança. No Natal botava um dinheiro na minha mão e dizia que era para comprar uma lembrancinha para as minhas meninas. Era médico que operava, mas quando eu comecei a trabalhar já estava aposentado. No início ele passeava sozinho; depois passei a acompanhar o doutor para fazer um joguinho na esquina e tomar uma água de coco. Mas as forças já não davam mais, devagarzinho ele foi murchando e deixou de sair.

Era homem bonito, mais jovem. Minha patroa tem uma mesa na sala só com fotos dos dois, do casamento, namorando, passeando, já velhinhos – como era posudo, sô! Casar com um homem assim até dá gosto!

Ele gostava de tomar vinho e de comer creme de abacate com licor de cerejas amargas. Também apreciava muito a minha canjica de milho e a farofa de ovo com alho e salsa picadinha.

O senhor passava muito tempo no quarto e de vez em quando eu batia na porta para oferecer um lanchinho e ver se estava tudo bem. Muita gente ligava, mas ele não queria que passasse as chamadas. Era vaidoso, não deixava que ninguém encontrasse ele fraquinho; mas também podia se contaminar das visitas.

Um dia eu perguntei à madame porque os filhos não procuravam no exterior um hospital para tratar o pai. A filha era viajada, passava de país em país com a família por causa da profissão do esposo. A senhora respondeu que o marido recebia o melhor que existia em todo o mundo. Depois abriu a bolsa e leu de um papel:

“A medicina é uma mãe generosa, que alarga a existência e promove qualidade de vida. Também se equivoca. Às vezes não dispõe de solução temporal para um problema que surge. Questão de sorte, padecer do mal que a ciência domou”.

Parece que a Medicina não sabia o que fazer com a doença do meu patrão. Ele tomava tanto sangue que parecia vampiro, mas logo carecia de mais. Não tinha remédio que ajudasse, era tudo na base do furo na veia. É preciso ter muita fé – o senhor mesmo dizia. Ele gostava de saber que rezavam por ele, falava em energia. Todo dia às seis da tarde eu desfiava meu rosário, começando com as ave-marias. Nas missas de domingo eu pedia socorro a São Expedito, o santo das causas impossíveis.

Quando os filhos se foram a casa ficou muito vazia e o doutor se ressentiu. A madame trabalhava muito, mas todo dia acordava cedo para cozinhar uma comida fresquinha para o marido. Eu arrumava a casa, lavava e passava. Ficava ele e eu naquele casarão cheio de móvel antigo e quarto vazio. Quando ela chegava, eu saía.

Até que uma noite o doutor caiu no quarto e ninguém soube. Quem avisou foi uma vizinha que escutou os gritos de socorro e chamou o porteiro. Desse dia em diante minha patroa botou um acompanhante para ele. Tinha medo de que alguma coisa de ruim pudesse acontecer enquanto estivessem sozinhos.

A madame ficava cada vez mais tempo em casa, não tinha ânimo para sair. Eu dormia de vez em quando, sempre que podia. Tenho duas filhas e a rua está cheia de más intenções, não dá para dormir de touca.

O doutor nunca mais caiu. Mas os exames de sangue começaram a empiorar. A gente pedia ao laboratório para liberar o resultado do exame bem cedinho. Vinha por fax, o doutor ficava ao lado do aparelho a tarde toda, ninguém podia usar a linha até chegar o que ele esperava. Depois se fechava no quarto, mas a gente sentia que não era coisa boa. Ele nunca reclamou, mas eu conhecia meu patrão. Arrastava os chinelos, parece que o corpo ficava mais pesado. Eu segurava contra o peito a minha Bíblia e começava a ler. Que mais eu podia fazer?

Passaram o doutor para o escritório, porque a cama era mais alta. O enfermeiro dormia com ele, levava ao banheiro e ajudava com a comida. Minha patroa disse que não tinha sossego com o estranho em casa, mas não podia mais sozinha com o marido. Às vezes eu chegava de manhã e os olhos dela estavam inchados de tanto chorar e pouco dormir. Ela sentia que estava perdendo o amor da vida dela, com tudo o que ela pelejava para conseguir o sangue e as injeções do tratamento. O patrão acordava muitas vezes durante a noite e a televisão ficava ligada sem parar - eu imaginava o inferno.

Outro dia a patroa estava falando com um dos filhos. Disse que estava chegando a hora, que ele e os irmãos tinham que se preparar, que podia ser de um dia para o outro. Depois ela chamou os outros, um por um. Eu me arrepiei toda e esconjurei.

Duas semanas passaram, e todo dia eles se falavam. Até que um dia a mãe repetiu para os filhos o que o médico tinha mandado dizer, que ninguém tinha bola de cristal, mas que estava próximo.

Todo dia eu entrava para cumprimentar meu patrão; ele perguntava pelos estudos das meninas e dizia para eu prestar atenção com as más companhias. Agora ele apenas sorria, depois nem isso.

Primeiro chegou a filha mais velha. O pai estava muito cansado, já não tinha assunto para conversar, não saía mais do quarto. O enfermeiro e a filha banharam o doutor na cama. A menina encheu o quarto com fotos dos filhos e dos netos – disse que era para o pai se sentir acompanhado. O senhor não suportava mais a claridade, e aos poucos não abriu mais os olhos. Acho que ele não queria ver o que a filha via. A gente mal percebia que a garota estava em casa, ela não saía de perto da cama do pai. Molhava sua boca seca, contava histórias divertidas sobre os filhos, sobre o trabalho, dizia que era preciso ser forte - até que o pai mandou parar. Era de partir o coração.

Não tinha dia que os irmãos não se falassem, às vezes mais de vez. Os netos também chamavam. Um dia atendi um telefonema do neto maior, que chorava porque também queria vir. Outra vez foi o neto que chamou a mãe. O anjinho parece que nasceu com um problema na cabeça. Ele estava aflito para tomar o avião porque tinha que entregar dois curativos, um para curar o avô e outro para la abuela, que também estava velhinha. Diz que o menino em casa mostrava com a irmã como era para segurar o avô, com as duas mãos, devagarzinho para não cair. Ele carecia de vir e perguntava quem podia tomar o avião com ele.

A vida se transformou num perrengue, o telefone não parava de tocar, muita gente perguntava pela saúde do doutor. Eu entendi que a coisa era séria. A música da Butterfly nunca mais saiu do lugar, o senhor já não queria mais escutar. Mas eu continuava arrumando outros discos que a filha tocava para o pai.

Na sexta-feira quando eu cheguei o doutor já tinha feito o exame de sangue. Entrei no escritório para cumprimentar. Ele estava muito cansado e pedia sangue, mas já não falava coisa com coisa. Minha patroa tinha pavor de entrar e ver o esposo naquele estado. Ela soluçava sem voz, vendo a filha ajoelhada ao lado do pai. Ninguém podia chorar de verdade ao lado do patrão, porque ele não gostava. Eu pedia nas minhas orações para que o sofrimento não durasse muito.

Quando o resultado do exame chegou, deixaram um recado no telefone do chefe do banco de sangue. Ele respondeu duas horas mais tarde, depois que todos já estavam por se desesperar. A filha falou da cozinha, para o pai não escutar. O médico explicou que o sangue já não adiantava e que estava na hora de pensar em parar, a mãe já tinha sido avisada.  Mas a menina custava a aceitar. O médico dizia que era puro sofrimento, e a filha discutia. Nesta tarde, o hospital mandou avisar que não tinha sangue para o doutor. Falta doador na Cidade para tanta carência.

O telefone não parou esta tarde, chamaram da família, os amigos e o médico para contar que tinham se comunicado com outro banco de sangue. No finalzinho da tarde, quando eu já estava pronta para ir, chegaram para colher uma amostra de sangue. Foi um custo, a mocinha espetava a pele, mas estava tudo seco.

Nós duas descemos no mesmo elevador. Ela não sorria nem falava. Eu disse que o doutor merecia tratamento especial, porque era uma boa pessoa. Ela sorriu antes de partir no carro do hospital.

No dia seguinte de manhã me inteirei que o outro hospital também não tinha sangue para o meu patrão. Que a filha ligou para os irmãos e que eles estavam por chegar. A madame só fazia chorar e não arredava do sofá que ficava do lado de fora do escritório. O homem ainda pedia sangue, mas cada vez se entendia menos. A língua começou a enrolar, parou de falar e se engasgava até para tomar a água embebida no algodão.

Minha patroa preparou suco de laranja, abacate com limão, purê de batata, mas não adiantava, era tarde para o homem. Ele não teimava mais com o enfermeiro porque não queria a fralda, mas mexia a perna para mostrar que se sentia incômodo.

Os meninos estavam a caminho. Cada hora ligava um neto para saber do estado de saúde do avô. Os netos da filha mais velha me perguntavam quando voltava a mãe. Os meninos também ligaram durante a viagem. Eu atendia os telefonemas para descansar a madame e a filha, que estavam muito afobadas. Elas passavam o tempo chorando e lembrando o passado - quando a menina não estava fechada no escritório com o pai. A filha botava o pai ao corrente da viagem dos irmãos e pedia para ele esperar.

Eu não podia me afastar daquela casa, saía de noite e voltava cedinho no dia seguinte. A respiração do meu patrão piorava a cada dia. No domingo de tarde o médico veio para se despedir. E não cobrou a visita. Ele achava que não ia passar daquela noite. Explicou ao enfermeiro a situação, que depois deixou o escritório. Sentou na cadeira do quarto e conversou com a esposa e a filha. Eu me espantei da sinceridade do homem, falando diante do doutor sobre o seu fim. Também conversaram sobre a vida do médico e sobre os planos da minha patroa para o futuro, se ela não gostaria de tomar um cruzeiro pelo mar.

Gente rica é mesmo outra coisa: quem pode pensar em viajar depois de todos os gastos com o defunto? Que vergonha, falar do senhor assim.

Uma vez escutei na Igreja que a Bíblia fala de uma maldição que faz o homem querer de noite que seja dia e de dia que seja noite. Pois aquela casa não parava nem de dia nem de noite, não havia sossego. As últimas horas antes dos meninos chegarem foram muito excitadas. O pai fazia um esforço sobre-humano para estar presente quando os filhos chegassem, mesmo sem falar, sem comer e com os olhos fechados. A garota não largava o pai, pingava água na boca, massageava as mãos desidratadas, passava creme cicatrizante nas feridas, mexia as pernas e mudava o doutor de posição. De tardezinha trocamos o lençol depois do banho e perfumamos o doutor. A menina contava as horas que faltavam para a chegada dos irmãos e avisava o pai. Assim passou a noite.

Às 8 horas da manhã tocou a campainha. Estávamos todos meio acordados, meio dormidos. Eram os meninos que chegavam. Eles beijaram a testa da mãe e voaram para o escritório. Entraram todos juntos, depois cada um ficou a sós com o pai. O que eles conversaram eu não sei. Depois que o último deixou o quarto, se reuniram no salão principal. O filho advogado leu o que tinha escrito no avião e todos nos emocionamos. Cada filho tinha sua história bonita para contar, um comentário divertido sobre o pai. Todos passavam e abraçavam a mãe. Choveram telefonemas dos netos, dos quatro cantos do mundo. Passou uma hora de choro, de riso e de lembranças.

A filha que chegou primeiro se levantou para servir um café forte para os irmãos cansados da viagem. No caminho atendeu um chamado. Falou alguns minutos, sem paciência. Ela desligou o telefone e perguntou de que vizinho eram as crianças que estavam chorando, mas eu não escutava nada. Ela insistia que era um choro suave de bebê, como se estivessem longe. Eu me arrepiei toda, pensando que eram os querubins que tinham chegado para carregar meu patrão. Saí na carreira atrás da menina, que pelo jeito também pressentia alguma coisa.

O enfermeiro anotava os sinais vitais do doente e não percebeu que a respiração tinha empiorado. A menina chamou pelos irmãos e virou o pai de lado para o ar entrar nos pulmões. Chegaram todos ao mesmo tempo e falaram alguma coisa. Minha patroa fazia cafuné no cabelo prateado do marido e dizia ao pé do ouvido que amava muito ele; a filha menor, que era dona de uma voz que o pai sempre adorou, cantou sua música preferida; o filho advogado recitou uma prece de mãos dadas com o pai; o caçula agarrou a outra mão e agradeceu por tudo que o pai fez por ele; a filha mais velha, que pediu para o patrão esperar seus irmãos, liberou o pai do suplício e mandou ele partir em paz.

O doutor chorou uma só lágrima, respirou uma vez profundamente e parou. Aos poucos, os sinais de vida desapareceram e o enfermeiro decretou muito tímido que meu patrão tinha partido. O médico confirmou.

Três horas mais tarde a filha menor decidiu que era preciso trocar o pijama do pai para que ele fizesse seu último caminho arrumado, como sempre foi. O corpo já estava quase frio, duro mesmo. O que mais me espantou foi o sorriso no rosto do doutor. Que diferença do cenho franzido dos últimos meses. Ele estava feliz, distendido, ausente de toda dor e sofrimento dos anos de calvário.

Passado o enterro, cada filho seguiu seu destino, e a senhora devagarzinho foi acertando o sono da noite. Todo dia um dos filhos chamava para saber como estava a mãe, mas já não era a louquice de antes.

Durante alguns meses não se ouviu música naquela casa. Os discos ficaram esquecidos nas prateleiras. A casa era de um silêncio que vexava a gente.

Até que um dia minha patroa pediu para eu levar a radiovitrola para a sala. A madame disse que estava com muita saudade do meu patrão e que necessitava ouvir música. Eu levei a Butterfly, e ela se emocionou com o que eu contei.

Junto com o meu salário seguinte veio um cd com a música que o doutor não queria deixar de escutar. Na ceia de Páscoa eu vou ouvir com as minhas filhas.

Feliz aquele que deixa uma música para ser lembrado.

A PAZ DO DESCANSO

Se você me ama, não chore por mim.
Se você conhecesse o mistério insondável
Do céu onde me encontro...
Se você pudesse ver e sentir o que eu sinto e
Vejo nesses horizontes sem fim e nessa luz
Que tudo alcança e penetra,
Você jamais choraria por mim.
Estou agora absorvido pelo encanto de Deus,
Pelas suas expressões de infinita beleza.
Em confronto com essa nova vida,
As coisas do tempo passado são pequenas e insignificantes.
Conservo todo meu afeto por você,
Com aquela ternura que sempre nos devotamos.
O amor que lhe dediquei permanecerá na eternidade,
Íntegro e forte.
Pense em mim em plena alegria da vida,
Pois nesta maravilhosa morada não existe a morte.
Se você verdadeiramente me ama,
Não chore por mim.
EU ESTOU EM PAZ.

Não Chore por Mim

Oração de Santo Agostinho – Século IV

Como quase todos os dias, despertei-me naquela segunda-feira, o céu ainda escuro, guiada pelo controle remoto da minha cama. Dirigi-me ao banheiro.

Sensação de alívio. Lavei as mãos. Aquele rosto sulcado, nu, era a verdade pura. Os últimos meses, anos, haviam sido de muita tensão. O diagnóstico do meu pai, sua dor, minha dor, a falta de horas de sono – tudo cardado na pele.

O relógio cronometrava meu atraso. Terminei de me vestir, desenredei o cabelo rebelde de uma noite de sono mal dormida e levantei a cabeça para mirar-me melhor. Respirei profundamente. Fora estava minha filha ainda aninhada em minha cama, com suas mãos aconchegadas entre seu rosto e o travesseiro. Difícil acreditar que aquele bichinho indefeso e tão pequeno pudesse rugir como um leão seu descontentamento matinal – era hora de despertar a fera.

Como quase a cada manhã, necessitava criar uma solução para a crise do despertar. Apesar de sua notável agilidade, tinha de segurar-lhe a mamadeira, que nem podia estar quente nem tão fria; vestir; pentear; escovar os dentes - tudo era negociado. Meu outro menino já estava pronto, com seu sorriso feliz de menor compreensão. Vinte minutos depois,  estávamos os três no umbral da porta que dava à rua; entreguei meus filhos aos (a)braços responsáveis da educação.

Aquela semana era particularmente especial. Estava às vésperas de uma viagem para encontrar meus pais que viviam no exterior. Deixaria minha jovem família e partiria só para meu destino. Era necessário pedir compreensão e atenção especial na escola para aquelas duas criaturinhas que ainda não contavam cinco dedos de idade e que ficariam em casa com o pai por catorze dias. Acreditava, por pura ingenuidade maternal, que teria capacidade de organizar o cosmo, minimizando as intempéries do período. Quanto mais corria e comprava, mais arrumava e explicava, escrevia e alertava... mais detalhes e conselhos sábios surgiam na minha lista de quefazeres. E em cada esquina havia uma nova emoção à espera de sua descarga.

Sofreria muito sua ausência, eu sabia. Deixava a casa em um equilíbrio instável, os nervos extenuados e o apoio absoluto à minha saída. Havia uma justificativa grave: a doença do meu pai. Apenas meses depois do inferno quimioterápico, seu exame de sangue novamente acusava alterações. Iniciou-se uma busca furiosa por diagnóstico, o corpo se desabrigava de seu pudor e se transformava em propriedade médica. Não há comunhão familiar que baste, trata-se do destino de UM. Por mais acompanhado que esteja, de amor, carinho, calor, conforto, os limites são claros, são as fronteiras do indivíduo. Compartilha-se o ar, a rotina alterada, a sala de espera, a informação, o olhar profissional e preciso que antecipa o calvário, mas não o corpo, nem o luxo do esquecimento temporal. Ao menos duas histórias são escritas, a do doente e a de seu acompanhante. 

Cruzava o pátio da escola organizando mentalmente meu dia. Sinto que uma mão me neutraliza, me puxa para si e comunica algo grave: – O Menino morreu.

Durante os últimos meses participei da luta por esta criança, paciente de câncer desenganado por um eminente médico da capital. Depois de muito insistir em viajar com o Menino para outros centros médicos, a mãe implorava por ajuda para enviar ao menos seu dossiê ao exterior – pois nenhum colega local ousava discutir categórico juízo. Havia que cruzar céus para alcançar outras opiniões. Por intermédio de uma professora do jardim de infância dos meus filhos, o pedido chegou às minhas mãos e, das minhas, às de uma doutora de opinião muito respeitada e que viria a ser a primeira mulher a entrar na Academia Nacional de Medicina. Aceitei com desafogo sua opinião, ao mesmo tempo em que afastava a incômoda constrição que me sufocava: forneci o contato médico de um excelente hospital no exterior, desejei-lhes sorte e saúde.

Também ofereci o telefone de outra mãe e seu Garoto de nove anos. Conhecia os detalhes do caso pela avó, grande sabedora de pequenas verdades. Haviam voltado os três fazia pouco de um tratamento realizado no exterior, tudo financiado pelo seguro de saúde. Como meu pai, o Garoto vivia às custas de transfusões periódicas de sangue. Como o Menino, era energia em estado vital puro. A volta à rotina se provava mais dificultosa do que o inicialmente previsto. Gostava de jogar futebol, queria competir com seus colegas, mas não podia. Palavras complicadas em seu exame de sangue lhe quitavam força e resistência. Os colegas de classe, do clube, não o queriam no time.

Além do transplante de medula realizado, a medicina tradicional não apresentava outra opção para conservar os índices da série sanguínea vermelha - apenas as transfusões. No campo vivia um homeopata, ex-veterinário especializado em rebanho bovino, conhecedor do pasto, que mexia com ervas. Na ausência de outra alternativa, ou por necessidade extrema de agarrar-se a uma tábua de salvação – palavras do meu pai -, o Garoto tomava religiosamente suas cápsulas adubadas pelo gado – tratamento não reconhecido pela Academia de Medicina de onde residia. Alopatia e homeopatia se cruzavam apenas no sangue do Garoto.

O médico que decidiu a vida do Garoto foi o mesmo que decidiu a morte do Menino. Mas aquela vontade férrea de oito anos mal festejados se burlava do laudo médico e teimava em viver. E morreu. Por quê? Por que justo agora? Tudo se somava à minha já pesada bagagem...

... Eram três indivíduos, três famílias, três histórias de vida e uma mesma doença. Restaram dois indivíduos, duas famílias, a família órfã do Menino e a mesma doença. Quantos sorrisos inocentes estariam por desaparecer como resultado de uma racionalização impecável? A quem cabe a decisão de alocar os recursos da saúde? Quem são esses novos funcionários do Destino? Como equacionar ciência, percepção e restrições orçamentárias?

Voltei aos meus filhotes de gente duas semanas mais tarde. Depois de acompanhar meu pai em sua leitura, suas preces, em sua fé inquebrantável na sua recuperação, depois de transfundirmos sangue, de desfrutarmos de boa música, de almoçarmos juntos. Todos momentos de muita intensidade e emoção. Médico, meu pai antevia seu futuro.

Meses mais tarde soa a campainha, era a avó do Garoto, às vésperas das festas de fim de ano. Em seu braço uma pulseira que minha filha teimava em tirar. Foi meu neto que me deu, é uma lembrança dele, nunca tiro do corpo. O Garoto já não estava mais.

Restava meu pai e seus setenta e dois anos. Duas famílias órfãs, a nossa, e a luta contra a mesma doença.

Um ano mais tarde, algumas visitas depois, o corpo do meu pai sensivelmente enfraquecido, e a mesma esperança férrea de seguir. A anemia profunda lhe subtraía as poucas forças que ainda lhe restavam. Era o começo do último fim.

Recebo um telefonema, a voz exasperada da minha mãe clama a presença dos filhos. Já em viagem tirei o bloco, a lapiseira, e deixei que a mão escrevesse livremente o que sentia.

Querido pai, onde está você?

Sinto saudades, ligo em hora errada e te encontro dormindo. Quero me aproximar, quem me dera poder carregar um pouco da tua dor, do teu medo, da tua ausência...

Queria que você soubesse o quanto te admiro. Nossas noites em casa passadas em família, lendo contos, escutando música erudita no escuro; o despertar de domingo ao som de música clássica e as grandes noites de ópera. O gosto pela boa leitura, meu primeiro livro com dedicatória, seguido de tantos outros... O prazer da boa mesa, das viagens realizadas.... E agora pai, para onde vamos?

O apoio incondicional, a aceitação e o amor verdadeiro, a certeza do reconhecimento. Tantos caminhos cruzamos, quantos desafios e dificuldades atravessei com a tua mão dada à minha. Graças à tua generosidade cresci, tornei-me  mulher e você esteve presente quando meus filhos nasceram. Quando duvidei de mim mesma, quando errei, quando não sabia que rumo tomar, você esteve lá. Também saberei perdoar as fraquezas dos meus filhos, suas imperfeições?
...

Duas horas mais tarde, aterrissei. Aproximei-me de seu penúltimo leito. Seus olhos, cerrados, já não queriam mais ver. Tampouco queriam escutar minha pequena carta. Passamos sua última semana juntos, eu falava, mimava, umedecia sua boca, escolhia a música que íamos escutar. Ele estava imerso em algum caminho que começava a trilhar.

Hoje somos três famílias e três histórias.

Batem à porta. É uma minúscula carta em papel plastificado. Começa assim:
Se você me ama, não chore por mim...

O ESPECIALISTA

Sentei-me naquele corredor longo e amplo, de luz fluorescente e sofás de couro. A clínica estava em restauração e, aparentemente, não havia recursos para terminar a obra.

Chegamos pontualmente. Era inverno, de um frio penetrante que refletia meu clima interior. Posicionei-me em frente à placa que identificava o especialista com quem havia marcado a consulta. Do meu assento via todos os consultórios, quinze ao total. Clínica geral, ortopedia, neurologia, pneumologia, pediatria, obstetrícia e outros tantos. Acompanhava o intenso movimento de pacientes, funcionários e doutores.

Mais adiante, passada a metade do corredor, encontrava-se de pé uma senhora uniformizada falando ao telefone; sua postura denunciava uma função de poder. Deixei minha filha no sofá, aproximei-me e perdi meu assento.

Reconheci aquela voz, era a secretária que agendava para todas as portas do corredor. Aparentemente, a falta de privacidade de suas instalações não lhe importava. Respondia a chamadas das duas linhas telefônicas e ainda recebia o público transeunte. Aguardo respeitosamente que ela se libere para atender-me.

Seis minutos depois, impaciente com sua tranquilidade, apoio meu cotovelo no balcão que nos separa, mas não a intimido. Provavelmente já havia deixado a outros esperando, pensei. Vislumbro o vulto de uma jovem de passos rápidos que, à medida que se aproxima, entabula sem cerimônia uma conversa com a senhora, como se ignorasse minha presença. Interrompo e sou interrompida. Aprendo as normas do jogo.

Por recomendação sábia da minha falecida avó, tomei dez goles imaginários de água fresca e aguardei. Quando me foi finalmente concedida a palavra, agradeci. Havia sido encaixada entre dois pacientes - o horário seguinte disponível distava três meses de quando chamei. Aproveitei e confirmei minha consulta, que deveria ter começado quinze minutos antes.

Meia hora mais tarde e minha filha já apresentava os primeiros sinais de irritação. Depois de oito horas semi-interna em uma conceituada instituição de educação pré-escolar, não podia exigir-lhe muito. Aos cinco anos, era exposta a três línguas, recebia aulas de yoga, computação, psicomotricidade, balé, ciências, música, natação e educação física. Formava uma campeã, mas não estava segura de que criava um cidadão melhor – desafiava a escola. Era mais do que aceitável que às 17h30mim não estivesse disposta a participar de uma atividade adicional.

A porta se abriu às 17h49min e de lá saiu o primeiro paciente. Já quase me levantava quando a voz que ecoava de dentro anunciou outro nome. Disfarcei minha perplexidade e fingi me acomodar na cadeira. Somente então fui comunicada que o status da nossa consulta compreendia uma espera considerável.

Acalmei meu ímpeto, rebobinando na memória a saga para chegar ao profissional adequado.  Foram semanas de consulta a conceituados terapeutas até que finalmente obtivemos uma lista selecionada, da qual extraímos três nomes. Mais algumas semanas se passaram e uma nova sugestão surgiu, desta vez definitiva. Dias de tentativas em que o telefone não respondia ou soava ocupado até que uma voz respondeu do outro lado do aparelho. Vinha munida de recomendação especial, explicava à controladora da agenda...

O orgulho me subia à cabeça. Havia perdido a tolerância para a espera. Eu e aquela fila não pertencíamos ao mesmo conjunto. Habitávamos regiões diferentes, utilizávamos meios de transporte distintos, não frequentávamos os mesmos ambientes. Mas isto, aparentemente, não era algo óbvio, nem possuía a mesma relevância para todos. Minha pequena filha, sem lugar à dúvida, desfrutava de sua companhia.

Cinco minutos para completar uma hora de consulta e o segundo paciente fechou a porta atrás de si. O ar entrava em ebulição à minha volta. E eu respirava profundamente para que o oxigênio que preenchia o vazio dos meus pulmões pudesse contrabalançar minha ânsia de partir. Mas para onde?

Este era um profissional reputado, com experiência clínica significativa. Do alto da minha ignorância, eu o imaginei arrogante e sua secretária, incompetente. Investiria em direção ao médico tão logo a porta se abrisse e me apresentaria. Mas antes que tivesse tempo de ensaiar qualquer iniciativa, a família que compartilhava o assento com minha filha adentrou o consultório, acenando com a mão um adeus de satisfação. Eram 19h54min.

Curioso, apesar do avançar dos ponteiros do relógio, as consultas seguiam com o mesmo ritmo de desestorvo. Havia uma espécie de acordo tácito de cavalheiros que aguardavam e eram aguardados placidamente. Era eu o peixe fora d’água, que não dominava o passar do tempo único que transcorria naquela ante-sala improvisada. Sempre fui mulher dinâmica, impetuosa, de agarrar o touro pelos cornos. Como havia mudado minha vida desde que começaram a me chamar Mãe... Antes, no melhor dos casos, este relato se encerraria ao entrar o primeiro paciente em consulta. Aos poucos domei a impulsividade de mulher sã; reconheço minha vulnerabilidade, a dependência do saber médico. Sento e espero.

Depois de acompanhar minha menina ao banheiro, em fase de instalação elétrica, voltamos em allegro. A fila colecionava novos pacientes pacientes, às 20h51min.

Senti a maçaneta da porta girar. A secretária estava agora dentro do consultório e preparava para ir-se quando a interpelei, já sem convicção. Com um sorriso de monge do Templo do Tempo, nos anunciou ao doutor.

Sua voz doce, quase feminina, nos convidou a entrar. Vestia um jaleco branco, monogramado. Possuía o cabelo fino e prateado, todo penteado para trás, cujo brilho denunciava o uso da tradicional ‘gomalina’. As mãos precisas talvez indicassem atividade cirúrgica.

Era um ambiente simples, quase espartano. Difícil conciliar a riqueza de conhecimento que supostamente encerrava aquele espaço com sua pobreza material. Sentamo-nos e o senhor que nos escutava era pura empatia e elogio para com minha filha. Falávamos do sucesso, das realizações, não das carências, das ausências. Sua generosidade impactava. Estavam diante de mim meu pai, meu avô, o pai da minha filha, o amigo que nunca tive, meu mestre, todos os meus deuses – em 100% de audição.

Não passaram mais de cinco minutos e a porta se abriu bruscamente atrás de nós. Ali estava um casal imponente, a senhora finamente vestida - sapatos e bolsa de couro - e seu marido a tiracolo. Apesar de meus esforços em reconstituir sua imagem, ele segue soçobrado sob as asas da mulher. Durante alguns instantes, detive-me naquelas figuras delgadas, de longo trânsito social. Nem o tom exasperado nem a postura condiziam, porém, com sua aparência externa. Aqueles mandavam, não pediam. Tampouco conheciam o valor da espera. A única que se pronunciava era ela:

- Boa noite, doutor. Esbaforida, explicou o motivo de sua visita e evocou o tempo de espera. Meu transtorno não me permitia acompanhar o que era dito. A senhora então se dirigiu a mim para saber o horário da nossa consulta – o seu era anterior. Foi o necessário para legitimar sua ação. A sala transpirava impasse.

Uma sensação de mal estar contaminava rapidamente todo o ambiente. O médico, sobressaltado, escutou toda a narração de pé. Em busca de uma solução rápida, pediu delicadamente que deixassem a sala – dirigindo-se a mim e a minha filha, já absolutamente vencidas pelo cansaço.

A situação me parecia tão surreal quanto improvável. Com o corpo embargado, arrastei as duas para fora. Voltamos aos abraços do sofá. Aos poucos, minha pequena foi se aconchegando e se apropriando das minhas coxas até que dormiu profundamente. O objeto da consulta foi nocauteado pela espera.

Novamente me via utilizando todo o peso da gravidade para me atar àquele assento. Quando pensei que a noite já havia proporcionado minha dose diária de aprendizado, uma invasão me desafia os brios. Como pode uma senhora, do alto de seus cinqüenta anos, disputar o lugar com uma menina de menos de um metro de altura - às nove horas da noite? De que servem os anos de educação? Que justiça havia no pedido médico?

Às 21h43min voltei carregando o espólio da batalha nos braços. Por indicação do doutor, deixei-a na cama de exame. Incômodo, ele se preparava para seguir do ponto em que havia sido interrompido. Eu necessitava de mais e provoquei. Ele respondeu embaraçado:

-          Sabe, minha filha, você pode me apresentar os casos mais difíceis da Medicina, eu me acomodo. Quadros raros que demandam pesquisa e consulta internacional não me assustam. Mas, sinceramente, não sei como reagir diante de uma mulher histérica. Que fazer frente ao descontrole daquela senhora? Responda-me por favor. Espero que você possa desculpar minha atitude, mas não tinha alternativa.

Quantos anos de estudo seriam necessários para lidar com situações deste gênero? Pensei que também os homens que faziam esperar tinham suas limitações. Nesse momento o especialista conquistou minha confiança e passou a ocupar um novo espaço.

A consulta seguiu seu ritmo normal. Uma hora depois, quando deixávamos o corredor, a fila continuava à espera dessa grande pessoa. Saí com minha bela adormecida e duas receita preenchidas. Uma delas prescrevia o concerto para cello de Dvorak, se possível interpretado por Mstislav Rostropovich.

Uma vez mais minha filha me proporcionava experiências inusitadas. Essa noite, dormi.

A NOTÍCIA

Faltam apenas cinco minutos.

O celular toca, o número é desconhecido. Meus filhos estão no jardim de infância, e meu marido no escritório. Estou a 80km de distância de todos os meus. 

Faltam cinco minutos para o início da minha apresentação. Trata-se de um treinamento intercultural proposto para executivos. O diretor da firma está presente e irá nos acompanhar durante toda a sessão. Não há janela ou luz natural, a sala é acarpetada de um azul escuro, meio sujo, meio mofado. A única saída é a porta que leva a um corredor cortado por outras portas, que por sua vez dão acesso a novas salas de reuniões quase iguais à que estou.

Afasto-me o mais que posso da sala de conferências com o aparelho pegado ao ouvido. Busco a luz nesse 31 de janeiro, dia frio, mas de muita claridade. Saio e instintivamente controlo o volume da minha voz e o tom do meu desespero. Registro as instruções que me são transmitidas do outro lado da linha pelo pediatra especializado em desenvolvimento infantil. O contraste entre a iluminação artificial e controlada do interior e a luz quente e fresca da manhã, que invade o pouco de céu aberto, anuncia o que será minha luta diária – entre o descontrole e o juízo, a tristeza e a esperança, a fé e a ignorância.

Trabalhei durante toda a gravidez até o dia da minha internação. Dei entrada no hospital com o computador ainda a tiracolo.

Sou funcionária de uma empresa global especializada em alta tecnologia. Com o crescimento da empresa e a conquista de fronteiras além-mar, surgiu a necessidade de aprimorar a comunicação dos trabalhadores entre si e entre esses e a Babel de clientes. Todo um esforço foi coordenado adicionalmente para mapear os diferentes valores e sentimentos dos indivíduos envolvidos. Analisou-se a cultura dos funcionários e das diferentes áreas da corporação; o mesmo estudo foi realizado nas empresas de nossos clientes, levando-se em consideração também as culturas nacionais relevantes, assim como as idiossincrasias do mundo hitech. 

Muito rapidamente constatou-se que um dos maiores desafios da comunicação consistia em desenvolver a habilidade dos indivíduos para escutar.

Quase certamente você nunca  parou para pensar no abismo que separa a ação de ouvir e o processo de escutar. Você ouve uma canção conduzindo o carro, mas tem de se concentrar para escutar música – isso me ensinava meu pai desde pequenina. Médico, ele atendia os pacientes e, ao final de cada consulta, recomendava a ária de uma ópera, o movimento de um concerto, ou ainda uma canção gospel, como parte do tratamento prescrito.

Escutar o outro implica aceitar que somos diferentes, reconhecer minha ignorância em relação ao outro, exige concentração para compreender o objetivo das palavras de meu interlocutor.

O universo hitech que eu frequentava era habitado por jovens no início dos seus trinta e marcado por um ritmo intenso em que a aceleração do tempo parecia algo real - enquanto a capacidade de escutar andava na contramão. Não raras vezes a comunicação se fazia por intermédio de um atropelamento de idéias e de palavras desencontradas. Perdia-se tempo e não raramente capital investido. É preciso desenvolver uma expertise para gerenciar equipes multiculturais que se comunicam em idiomas diferentes, de acordo com o protocolo das respectivas culturas. Normalmente esta perícia não se adquire na faculdade de engenharia ou de computação.

Vivia intensamente meu trabalho, mesmo depois de tornar-me mãe. Dissociar-me da doença do meu filho fazia sentir-me valorizada. Além de prematuro, nasceu com uma fraqueza dos músculos cuja causa os médicos não chegavam a diagnosticar. O pai e eu o levamos a muitos especialistas e, por força das circunstâncias, aprendemos uma dezena de termos médicos até então desconhecidos de nosso léxico, além de patologias das quais nunca havíamos desconfiado de sua existência. Também visitamos hospitais especializados em reabilitação infantil, vivemos a deformidade e a imperfeição – principalmente, aprendemos a valorizar a vida.

Conhecemos médicos eméritos, especialistas em diversas áreas, humanistas genuínos e ainda pobres de espírito. Lembro-me de um profissional da área de neurologia pediátrica a quem nos encaminharam. Necessitava hibernar alguns dias depois de cada consulta – fecho os olhos e me vem nítida sua imagem a avaliar meu filho com uma lupa de aumento invisível e seu sorriso quase irônico enquanto eu desfiava os progressos do menino.     

Entre as pessoas que nos cercavam havia os lúcidos, os crentes e, por último, os familiares e amigos. Meu obstetra tornou-se um amigo crente. Passamos por muitas crises, uma vez, quando dei por mim, estava em seu consultório.

Mais de uma vez escutamos vozes médicas afirmarem que o diagnóstico virtual da doença do nosso bebê beneficiaria toda a família, pois anunciaria  o tratamento. Eu experimentava um verdadeiro pavor em cogitar que houvesse algo efetivamente errado com nossa criação. Independente de nossa vontade, a notícia bateu à porta.

Consoante à recomendação do pesquisador especializado em desenvolvimento infantil, partimos em direção ao hospital. Nossa consulta com a especialista em genética estava agendada para menos de vinte e quatro horas depois que um um ponto de ônibus situado a meio caminho do hospital havia voado pelos ares. Passei a véspera em claro, perguntando-me se não deveria desistir do encontro e considerar-me uma mãe feliz pelo simples fato do meu filho não ter desaparecido tragicamente aquela tarde junto com outros quantos meninos.

O resultado veio à cavalo. Reconheci do outro lado da linha a voz do médico pesquisador que, na realidade, buscava meu marido. Em meio a um sincero embaraço, recomendou que entrássemos em contato com a geneticista. O que ganhava em intuição me fazia perder em estabilidade. Confirmei com o doutor o que já havia compreendido. E o que se seguiu foram instruções e burocracia. 

Desligo o telefone. Até então nenhum médico havia dedicado de seu precioso tempo para nos informar ou comentar o resultado de um exame solicitado  – provavelmente porque até pouco antes desse telefonema não havia o que comunicar.

É preciso dar início ao treinamento. São clientes em potencial, é preciso ganhar a nova conta.

O seminário terminou. Durante meu trajeto de volta à casa, fez-se noite escura na estrada. Meu marido me esperava em casa. A criança dormia. 

Banhei-me à luz da noite e chorava minha dor. A água caía em abundância e escorria salgada por todo meu corpo. Esfregava cada pedaço de mim com força suficiente para apagar qualquer rastro do que havia sido meu dia. Com o auxílio da toalha, seco o espelho embaçado pelo vapor da água quase fervendo e da penumbra vislumbro meu cardar. Preparo-me para dormir.

Amanheceu um ano depois. O dia está bonito, o sol brilha forte no parque. Há um enorme lago com muitas espécies de aves. Sento e me permito ser seduzida pela Natureza, em suas infindáveis cores, formas e aromas. Crianças de todas as idades se debruçam sobre a pequena cerca que envolve o lago, é quase possível adivinhar os diálogos das famílias fascinadas com a vida que se descortina com tamanha beleza, simplicidade, harmonia e sofisticação. Em especial aprecio o balé dos pelicanos.

Há também uma cegonha solitária.