Compartilho Meus Umbrais

Escrevi Umbrais enquanto vivia em Montevidéu, cidade de gente de bem e que muito me ofereceu.

Não se trata de textos autobiográficos mas, certo, algumas paragens se escondem entre as linhas dos contos.

De certo modo, Umbrais representam para mim um rito de passagem do meu eu adulto, mãe, filha e mulher.

Obrigada por me acompanhar.

Se quiser, por favor me deixe saber sua opinião.

6 de outubro de 2011

A MENINA DO SUPERMERCADO

Trabalho como recepcionista numa clínica de um bairro residencial. É muito comum a troca de casos e vantagens entre os pais que acompanham seus filhos ao consultório. A ante-sala termina o dia enriquecida com as experiências dos pequeninos.

Agora mesmo a mãe da menina de sorriso maroto está contando uma história recente sobre a menina. O pediatra se nega a cobrar a consulta porque diz que a paciente é filha de uma colega da profissão, mas a senhora insiste em pagar.

Semana passada, levei minha filha de três anos ao supermercado pela primeira vez. Na realidade, foi mais uma solução negociada com meu marido porque não tinha com quem deixá-la. Sinto-me culpada por me ausentar freqüentemente  de casa por horas seguidas  e, como conseqüência, aproveito para transformar a rotina doméstica em programa familiar. Levei o carro, e a menina de carona.

Tudo estava saindo perfeito, ela me ajudava a ensacar o leite, escolhia os iogurtes, as frutas e os biscoitos. Depois voltava à cestinha do carrinho de compras e seguia com seus grandes olhos atentos todo o movimento a seu redor. A situação parecia um programa ideal, conciliando minhas necessidades de dona de casa com uma atividade que era um verdadeiro estímulo para os sentidos: ela observava tudo e ainda experimentava o que ofereciam as demonstradoras de produtos.

De repente ela gritou:

-          Mamãe, olha, uma rã!

Passei uma vista pelas gôndolas dos frios, das carnes e dos frangos, mas não enxergava a tal da rã. Escolhi um frango embalado numa bandeja descartável, e lá foi ela de novo:

-          Olha aí, mamãe, uma rã!
-          Mamãe, dá ela pra mim! Gritava a menina do alto do carrinho, agitando as perninhas.

Alguns segundos depois, ela quase aos gritos, finalmente compreendi:

-          Que é isso minha filha, isso não é uma rã, é um frango, uma galinha para a gente comer! Vou deixar ela aí no carrinho bem bonitinha, junto com as outras compras. Viu como ela está contente aí quietinha? Agora está tudo bem, pode parar de chorar!
-          Buáááááááááááááá!  Ela respondeu.

Percebi que os olhares alheios se voltavam para nossa direção.

-          Pára de chorar, menina, senão nunca mais te trago para andar de carrinho de compras!
-          Buáááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááá! Minha rãzinha, dá ela pra mim, mami! Ela é prima da Frog Frog de pelúcia lá de casa!

A essa altura, os olhares não somente examinavam, mas também julgavam. Sentia que não podia mais, necessitava frear o curso de nosso passeio de carrinho:

-          Chega, amore mio! Ninguém na escola te ensinou a diferença entre uma rã e um frango embalado? As rãs são verdes, os frangos são pálidos, sem cabeça, sem penas...

Aproximei-me da caixa registradora. Para satisfação virtual do meu marido, que a esta hora assistia tranqüilamente a final da Copa América, deixei metade das compras por fazer.

A menina não parava de soluçar, e eu estava à beira de um ataque de nervos. A experiência deixou de ser prazentera para mim, para minha pequena filha e certamente para todos os demais seres vivos de passagem pelo supermercado.

Quinze minutos depois, chegamos ao carro. Dei-me  por vencida: coloquei minha filha no assento traseiro do carro e a rã, confortavelmente, sobre suas perninhas.

A última vez que tentei dissuadi-la, desisti. Pelo retrovisor percebi que ela acariciava o frango. O plástico protetor da embalagem havia furado e pingava no estofado do carro um líquido viscoso rosado. A rã e a minha filha estavam em plenos amores, com a patinha do frango colada em seu rostinho! Seu instinto maternal é muito poderoso.

Agora vem a resposta exibida da avó orgulhosa do pequeno marinheiro. Mas, aparentemente, essa história terá que esperar até a próxima consulta, porque o doutor chamou o próximo sapeca da fila.

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