Sobre el prefacio ya se dijo: posterior, precede; se excluye del libro y allí se encuentra; el prefacio tiene al autor por autor, alguien que “extramuros” se identifica con el lector; un mismo autor, lector – auto(r)lector de un mismo libro, y como un salvoconducto, inicia una complicidad más allá de la obra y su clausura.
Lisa Block de Behar
Al Margen de Borges
O que se segue são quatorze contos curtos cujo denominador comum são experiências acumuladas dentro do âmbito da saúde, seja em um consultório médico, em um hospital ou alhures, desde a ótica pessoal do profissional ou do ponto de vista do paciente. Nascimento, sofrimento e morte perpassam quase todo o escrito, às vezes sob forma contemplativa, outras sob narrativa em primeira pessoa.
Os textos são independentes e possuem sustentação própria – assim espero. A ordem em que se encontram é apenas uma sugestão, não sendo necessário avançar de forma linear. Se o leitor se interessar por enveredar pela costura das narrativas e da trama de seus habitantes, permitir-me-ia aconselhar que caminhasse ao próximo umbral.
Moro em um apartamento pequenino, que herdei de minha falecida avó. Talvez os móveis tenham crescido nestes últimos setenta anos ou quiçá o espaço tenha encolhido como resultado da especulação imobiliária que nos circunda. O fato é que não havia mais lugar livre entre a cama, o armário, a mesa, a cadeira, a geladeira e o fogão. E o banheiro também.
Para combater o problema, desfiz-me do supérfluo e hoje guardo apenas o indispensável. Abdiquei do título de maior colecionador de revistas sobre medicina dirigidas ao público leigo e doei os cinco aparelhos de jantar e de café que pertenciam à família. Também não sou mais o proprietário do maior número de copos de geléia de mocotó ou de latas de biscoito decoradas. Abri mão da coleção de discos de vinil, dos livros escritos em papel, dos cabides de plástico e do armário. Tudo o que me pertence está organizado em caixas.
Minha antiga biblioteca ocupa cinco caixas de sapatos de homem. Em cada uma arquivei uma folha – duas páginas - de cada livro que passou pela minha vida e me transformou. O resto faz parte do passado e me tomaria um lugar de que não disponho. Abro esta caixa com deferência e amor. De dentro exala sempre um aroma diferente, uma nudez distinta – dependendo da folha que me chama. Somos íntimos confidentes, guardo o segredo de sua gramatura e a textura do papel, das letras organizadas em palavras que criam um sentido próprio. Ela cala por sua vez o segredo do meu toque, das minhas fantasias e do que pensava que era enquanto a descobria. Fechadas, são certamente as caixas mais tímidas que possuo. Abertas, desvelam paixões e arrebatam, como tornados, sentimentos outrora assentados. São as caixas mais leves e de maior peso.
As letras do alfabeto encerram todo o universo. Letra por letra inaugura uma seção do dicionário, que contém o professor, o iletrado e a cultura oral. Unidas a outras letras abrem um feixe de significados de criação incessante, infinita. Uma equipe profissional encarregada de declamar todos os verbetes de todos os dicionários de todos os idiomas do mundo tampouco teria condições de abarcar o mar que é a combinação das letras do alfabeto. Cada novo bebê traz em si o potencial de novas conjugações do alfabeto e de novas interpretações das palavras.
Guardo quatro caixas de sapatos tamanho 33-34 para fotografias. Há fotos da família, dos amigos, das viagens realizadas, da decoração anterior do apartamento e dos transeuntes que passam pela janela do meu quarto. Certas pessoas conheço apenas através das minhas lentes.
Uma chuva nunca é igual a outra, e por isso as registro. Gosto quando o céu se tinge de gris e a luminosidade óbvia se quebra, divirto-me acompanhando pela janela do meu quarto o desfilar das capas e dos guarda-chuvas. Também me identifico com a vulnerabilidade dos desabrigados. Algumas pessoas me despertam a curiosidade pela capacidade de manter sua civilidade mesmo sob águas torrenciais. Desço para conhecê-las de perto, sem ser notado. As pessoas vêem apenas o que querem.
Os mantimentos da cozinha estão em caixas que antes guardavam botas de cano longo, pois são mais espaçosas. Para diferenciá-las das caixas mais importantes, eu as forrei com panos de prato – somam três ao total. A vida é um fluxo incessante de energia em estado puro e está em constante transformação. O excesso e o acúmulo criam a gordura, geram o desequilíbrio adiposo. Se para a partida definitiva não se leva mais do que o próprio corpo, então de que me serve armazenar? Pretendo ser imperceptível em minha saída, desapegado e ligeiro. Vou ao mercado quatro vezes por semana e compro essencialmente o que penso consumir no espaço temporal de dois dias, o que nunca é muito. O resto ao futuro pertence.
As caixas mais deliciosas guardam recordações vinculadas a uma determinada pessoa. Da última vez contei mais de trinta, de distintos tamanhos. Começo normalmente com uma caixa de sapato de medida 21-22; à medida que o vínculo se desenvolve transfiro o conteúdo para uma caixa maior, que pode chegar até a bota de cano longo ou o pé de anjo. Às vezes me engano e necessito retroceder. Meu limite é uma caixa por indivíduo.
Sou filho e neto único. Hoje sou o único membro que restou de toda a família. Pertenço a uma longa tradição de contadores de histórias - umas mais longas que outras. Minha mãe raras vezes terminou um conto, era sempre vencida pelo sono. Já meu pai gostava de contar sobre momentos épicos da História. Minha avó se recusava a falar e, com isso, tudo dito estava. De todos, meu avô era o mais generoso. Quantas cidades e quantas mulheres visitei sentado no seu colo. Ele me apresentou meus antepassados e me adiantou o que se esperava de mim. Conheci pessoas boas e outras nem tanto; principalmente, exercitei o ouvido e aprendi a agradecer.
Por força das circunstâncias, desde pequeno acompanhei meus avós e meus pais. Primeiro porque não podia estar só, depois porque eles não podiam estar sós. À medida que o tempo passava, mais freqüente se tornava a medicina em nossas conversas diárias. Muitos médicos habitaram as histórias da minha infância, seja pela proximidade do hospital do bairro ou profissionalmente. Sentado em poltronas que me deixavam com os pés flanando no ar, e mais tarde com as pernas firmes no chão - com esses olhos que a terra há de comer -, conheci muitas salas de espera, algumas secretárias e uns quantos doutores.
Em algum passado longevo cogitei seguir a carreira médica; hoje reconheço que minha inteligência não teria dado para tanto. Está por nascer o professor que tenha a capacidade de me transmitir as leis da genética. Continuo um grande admirador das distintas modalidades curandeiras e da medicina em particular.
Mais de uma vez decidi organizar uma pequena ceia com os médicos das minhas caixas. Abro os arquivos e redescubro histórias, idiossincrasias e aromas – reais e inventados. São quase todos conhecimentos platônicos, despojados de endereço e telefone. Alguns deixaram de ser matéria e convivem na memória de poucos. Normalmente emboto a iniciativa com uma noite regada à Merlot em frente à janela do meu quarto.
Algo passou que não sei explicar. Senti que a memória ameaçava trair-me e decidi oferecer ao papel uns quantos causos. Alguns foram vivenciados, outros testemunhados ou relatados em primeira pessoa. Separei caixas de memórias que acumulei ao longo dos anos e reinventei quatro indivíduos e suas respectivas famílias. Agarrei do lápis e do papel, e o resultado é uma pretensiosa ceia chinesa de quatorze textos e um comensal.
Os contos se interconectam – apenas se assim o desejar. Se for esse o caso, apresento a seguir alguns dos ex-quase convivas:
· O doutor Música é O Especialista, pai da mulher do diplomata. Sua despedida e partida estão contados nos textos Música e A Paz do Descanso.
· A filha de O Especialista é mãe de uma criança portadora de uma síndrome genética. Aparece em A Paz do Descanso, A Notícia, Ultra-Sonografia, Disfarces, Heranças & Lembranças e faz parte do casal anfitrião do e-mail de O Futuro e O Passado.
· A Menina do Supermercado é filha do médico plantonista e da primeira mulher a ingressar na Academia Nacional de Medicina. É também a mãe da criança que se consulta com O Especialista. Paredes sintetiza brevemente sua vida. A Janela do Segundo Andar conta sobre sua vivência do carnaval e sobre a doença de seu pai, o médico plantonista.
· O médico plantonista apresenta um dia de trabalho em Fim do Plantão.
· A Segunda Sessão é um relato em primeira pessoa da mulher do médico de Fim de Plantão e mãe da Menina do Supermercado. A secretária em Ultra-Sonografia vem a ser sua irmã.
· A cegonha de A Notícia entrega Mati & Cloti aos pais. O pai das meninas é o autor da carta manuscrita e encontrada em um livro na África pelo hóspede do casal de diplomatas – contado em O Futuro e o Passado.
À medida que avançava, assustava-me com a descoberta do parentesco e da relação entre as pessoas que surgiam. Escutei na memória um médico citar: cada gota d’água contém todo o universo. Pensei que talvez passasse assim com as pessoas também. O Especialista atendeu à filha da Menina do Supermercado, que por sua vez era filha de sua colega da Academia Nacional de Medicina. Algumas pessoas provavelmente se cruzaram nas ante-salas dos consultórios que frequentavam ou simplesmente foram contemporâneas de geração. O hematologista que atendeu o doutor Música era amigo do doutor Plantonista. A Menina do Supermercado se transformou em sua descendente, assim como todo pai e toda mãe – por força dos genes. Assim como cada um de nós poderá eventualmente alimentar a terra onde crescerá o tronco que mais tarde dará origem à cadeira fálica do consultório do obstetra – na visão de sua secretária. Eu me admirei ao compreender que todos estavam conectados de forma mais ou menos direta. Que todos eram em realidade UM. Porque somos todos UM.
Nenhum comentário:
Postar um comentário