Compartilho Meus Umbrais

Escrevi Umbrais enquanto vivia em Montevidéu, cidade de gente de bem e que muito me ofereceu.

Não se trata de textos autobiográficos mas, certo, algumas paragens se escondem entre as linhas dos contos.

De certo modo, Umbrais representam para mim um rito de passagem do meu eu adulto, mãe, filha e mulher.

Obrigada por me acompanhar.

Se quiser, por favor me deixe saber sua opinião.

6 de outubro de 2011

MATI & CLOTI

Ao fim de uma longa viagem, a cegonha chegava a seu destino. Projetou minuciosamente e realizou seu pouso mais elegante. Alongou o corpo rijo do esforço empreendido e deslizou pelo bico a peça de linho com as crias ainda aninhadas, que depositou nas duas cestas situadas à entrada principal. Bateu à porta e esperou que os filhotes fossem introduzidos.

Sentiria a ausência das pequenas, como lhe passava cada vez que realizava uma entrega. Era a primeira separação que as gêmeas sofreriam, pensou em seu caminho de volta. Sempre protegidas, agora estavam entregues a seu lar definitivo. Os bebês chegam sem manual de instruções – teriam esses pais discernimento para aprender com as filhas como guiá-las em seu crescimento? Eram questões que lhe perseguiam o pensamento enquanto flanava silenciosa.

A cegonha vivia num microcosmo do éden, vizinho à ação do Homem. Desfrutava dos rios, do mar, e comia do alimento fresco que sabia estar à sua disposição. A terra seca e fofa generosamente embalava o corpo úmido recém saído d'água, enquanto a sombra das árvores mais altas acalentava o roble com o ninho de seus ovos - promessa de permanência na Terra. De natureza migratória, acomodava-se segundo o clima e os costumes locais. Ainda assim, durante suas expedições, ansiava por voltar ao bosque impenetrável de sua infância. Concentrada, chegava mesmo a escutar as cigarras e sentir o inconfundível aroma de tomilho invadir a mata densa.

Ao se depararem com os filhotes recém-nascidos, os novos pais se tornaram pura felicidade. Apresentaram seu quarto aos bichanos, junto aos brinquedos e os livros, e celebraram a ocasião com uma saborosa ceia. Agendaram uma consulta médica para a semana seguinte, desmarcaram todos os compromissos pendentes e vestiram suas roupas mais confortáveis de pais.
  
Foram dias de grande crescimento, em que a família aprendeu a se conhecer e a se amar. Fizeram tudo juntos, do despertar do dia ao anoitecer. As duas meninas eram muito diferentes, uma bem clarinha, a outra pintada. A primeira era rápida, voraz, atenta a todo o entorno. Já a segunda era mais contemplativa e parecia cansar-se com mais facilidade. Também tinha estatura mais baixa e comia aparentemente com mais dificuldade.

Depois de muito se divertirem, chegava o grande momento. As pequenas deixaram a casa com uma fita colorida na cabeça, cada qual com o nome gravado em uma placa que lhe pendia do pescoço: eram Mati e Cloti.

A família entrou unida no consultório, mas apenas três deixaram a sala de exame. Havia algo em Cloti que demandava um período de observação mais longo. A alegria se converteu num mar de choro em que as lágrimas de um se confundiam com os soluços do outro. Também Mati carecia de cuidados especiais, que seriam ministrados desde casa.

O princípio da história das meninas foi paradigmático da continuação de suas vidas. Trilhavam caminhos paralelos: Mati crescia segundo o esperado, Cloti tinha seu tempo próprio, tudo acontecia em um ritmo especial, desemparelhado, com apoio intensivo. Uma já contava dois meses em seu novo lar, a segunda esperaria um mês mais para voltar.

Todos os dias do mês seguinte mãe e filha visitaram a bebê na clínica, e o pai as recolhia mais tarde. A espera do horário permitido para visitação parecia mais a travessia de um túnel interminável, que cruzavam com muito esforço.

A rotina da família dividida cobrava suas vítimas. A chegada das meninas foi de grande felicidade para o casal, porém havia a eterna culpa por desfrutar de UMA filha em casa enquanto a OUTRA seguia na clínica – o prazer e a dor coexistiam em um suspiro. Seria possível viver plenitude e miséria em um mesmo segundo de vida?

Mati se tornava arredia, esquiva, e saltava cada vez que a mãe se aproximava para massagear seus pezinhos castigados pelas injeções diárias. Uma vez empurrou a porta do armário e escutou a mãe cantar necessito exorcizar a dor da minha maternidade. O que seriam estas palavras?

O período em que Cloti esteve na clínica representou o inverno no seu mal constituído instinto maternal. Eram tantos olhos a observar, tantas mãos a  guiar, tantas opiniões sobre os mais distintos temas, que seu projeto de mãe, seus parcos instintos de fêmea recém-parida foram murchando, preteridos pela disciplina e o asseio de uma instituição de saúde. Os meses vividos em companhia de médicos, enfermeiros e pesquisadores contribuiu para que a nova família se transformasse quase em uma nova experiência acadêmica.

Num fim de dia um senhor pediu à nova recepcionista da clínica para visitar Cloti. Chegava com um bloco de anotações, que preenchia enquanto conversava com a bebê:

Meu grande  tesouro,

Peço, em todas as minhas preces, força e sabedoria para discernir e compreender as necessidades de nossas pequenas, para ajudá-las a encontrar e seguir seu próprio caminho.

Ontem te machuquei pela primeira vez. Enquanto te acariciava peguei tua patinha e, tentando flexioná-la, forçei um movimento errado. Teu rostinho de menina perfeita se contorceu, você não chorou verdadeiramente, apenas registrou a dor.

Amo vocês mais do que tudo que jamais tive; queria ser corajoso para entrar em você e terminar com sua ausência.

Choro agora a tua dor, e também a minha. Encosto-me à parede e busco na solidez do concreto a certeza das respostas definitivas para minhas dúvidas de pai...

Outro dia estavam a mãe e Mati desoladas na recepção quando passou a enfermeira responsável. Telúrica, intuitiva, visceral, ela convidou as duas a entrar antes do horário permitido. Sabia que Cloti não passava um bom dia. Tirou Mati dos braços da mãe e a deixou no espaço da irmã. Era a primeira vez em muitas semanas que as gêmeas se viam de tão perto. Cloti mal se mexeu, encolhida em seu canto; Mati se desesperou dentro da gaiola de luxo - incômoda em situações de intimidade com estranhos, protestava a proximidade da outra. Aos poucos se achegou, atraída pela familiaridade do olor exalado.  

Alguns instantes mais tarde estavam as duas entregues ao encontro. Cloti volteou seu corpo em direção à Mati, que com seu focinho cheirava a irmã mais frágil. Esta observava passiva e prazerosa. Mati começou a lambê-la por inteiro, numa ação que parecia não ter fim. Cloti se animou como anfitriã e lambeu de volta sua visita.

A descoberta da intimidade das gêmeas recuava ao início de suas vidas, ao caminho percorrido sob a proteção da cegonha; era como se a gatinha clara e a pintada nunca tivessem conhecido a separação.

Assistindo estavam a mãe, a enfermeira e a diretora da clínica. Mais tarde, a notícia se espalhou pelos corredores. Uns afirmavam que se tratava de bruxaria, outros que era milagre da ciência.

Algumas semanas mais tarde Cloti voltou para casa.

Há famílias que celebram cada mês do primeiro ano. Nessa família somavam-se os dias de Cloti em casa, para festejar o momento em que sua presença ultrapassaria os meses vividos na clínica. 

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