A fachada principal engana o caminhante desavisado. Por detrás da grade de ferro art déco que protege o pequeno jardim de lavanda e alecrim, há um portão de madeira maciça castigado pelo sol, contornado por duas buganvílias de cor ocre que se entrecruzam na sacada do segundo andar. A senhora uniformizada me indica a direção da mesa com as cadeiras cromadas de cor verde.
Bom dia. Sempre gostei do frescor das manhãs, quando o dia parece limpo. Aperto firme a mão do senhor que me sorri por debaixo do bigode grisalho e o sigo até os fundos do velho casarão de pintura descascada tombado pelo Patrimônio Histórico. Impossível imaginar que haja tanto espaço e tanta parede no interior de uma fachada tão estreita. Pinturas identificadas, iluminadas corretamente, livros de todas as cores e tamanhos, discos de vinil e cd’s, além de uma importante coleção de dvd’s, povoam o espaço interior. Os grandes janelões convidam a luz do dia a incidir sobre as peças de cristal coloridas e antecipam a exclamação diante do jardim inglês que precede o consultório.
O consultório é todo revestido de madeira escura e cheira a pinho queimando. Acima da lareira estão os diplomas, e no centro uma foto sépia de um índio americano. Há duas estantes abarrotadas de livros de poesia e outros especializados em medicina, psicologia clínica, psiquiatria e psicanálise. As duas poltronas e o somiê encostado à parede são de couro vinho; os tapetes e a manta do somiê têm motivos étnicos africanos – tudo está em harmonia, sem que um elemento se sobreponha a outro.
São tantas referências que no primeiro encontro mal pude me abstrair. Não podia deixar de me perguntar quem pagava por essa rotina nababesca. Estou diante de um profissional recomendado, de longa trajetória e resultados comprovados, professor titular da cátedra, além de professor visitante em distintas universidades. Pressinto que meu bolso está destinado a financiar novos Laliques, Muranos e Gallés. Trago a saliva e faço valer meu dinheiro.
- Sou uma mulher realizada. Alcancei quase tudo o que planejei para a minha carreira e, mesmo hoje, aposentada, sigo no Tribunal de Ética Médica. Meus filhos são profissionais competentes, bem remunerados, casados e pais de filhos maravilhosos. Meu marido foi um grande médico e um bom homem. Na verdade, não fosse pelo problema que lhe antecipei ao telefone, não estaria aqui.
Meus pais chegaram a estas terras hospitaleiras fugidos da miséria do país onde nasceram. Minha irmã e eu nascemos na Cidade. Meu pai nos instalou na capital enquanto buscava novas oportunidades no interior. Pouco o vi até minha adolescência, quando compreendi que estava separado da minha mãe. Lutávamos muito todas três. Minha mãe sempre nos incentivou a ler, tínhamos que ser as primeiras da classe. Possuía a energia e a sabedoria adquirida dos imigrantes. Dizia que era preciso estudar, porque o saber não pesava na bagagem.
Minha mãe era costureira, trabalhava até tarde, aproveitando que o movimento da casa diminuía. Se fecho os olhos ainda a vejo sob a iluminação fraca, encolhida em seu xale com as mãos furadas pela agulha, vermelhas do frio úmido. Passar roupa era todo um suplício - sinto ainda hoje o peso do ferro e o cansaço de tanto abanar a lenha e soprar pelo orifício do ferro para a brasa não apagar. Cada vez que percebíamos minha mãe buscar brasa no antigo fogão à lenha, corríamos para os livros.
Os quartos cheiravam a carvão durante o longo inverno, mas quando chegava a primavera se podia sentir o aroma do florescer da laranjeira. Nunca comi tão bem quanto na casa de mamãe, era um menu simples, mas muito saboroso. Quando me sinto nostálgica, encomendo à minha irmã o folhado de maçã, canela e gengibre da minha infância. Sentamos na cozinha com as antigas taças de vidro bem fino, tomamos uma infusão de ervas adocicada com mel e saboreamos o doce recém-saído do forno – tudo como antigamente. Minha irmã herdou as receitas da família, mamãe nunca me incentivou a cozinhar, dizia que ganharia mais com a Medicina. Mas até hoje não descobri um hidrólio que fosse tão eficiente contra um resfriado como sua canja de galinha!
Apesar de muito exigente e implacável com os nossos erros, foi uma boa mãe. No seu mundo não havia lugar para os fracos, para a dúvida. Nunca se queixou da sua vida difícil, de saudades de sua terra natal, da ausência do meu pai ou das dificuldades de criar duas meninas sozinha; acho que apenas uma vez a vi chorar. Ela não gostava muito de falar, nem de repetir seus pedidos, que às vezes mais pareciam ordens. Dizia que a palavra era de prata, mas o silêncio de ouro. Imagino que sua falta de destreza com a língua que nunca verdadeiramente domou também lhe causasse certo incômodo. Nunca consegui que ela deixasse de dizer bor vafor. Era uma mulher nervosa, às vezes perdia a mão e descarregava em cima da gente com o chinelo. Em duas horas se arrependia e nos mandava ao armazém com alguns vinténs para comprar balas. A formação rigorosa que recebeu não lhe permitia pedir desculpas às filhas. Foi um grande exemplo de mulher. Gostaria de tê-la por perto agora.
Graças aos seus esforços, estudamos e nos formamos. Sabia que me tornaria médica desde pequena. As mulheres de minha época estudavam para serem enfermeiras, professoras e secretárias – como minha irmã -, mas nada podia me fazer desistir do meu sonho.
Uma vizinha da rua trazia tecidos das suas viagens de navio e folheava as revistas importadas de moda junto com minha mãe. Às vezes se fechavam no quarto e eu podia escutar o riso nervoso das duas. Encostava a orelha na porta e sentia uma vibração diferente, era a excitação feminina de quando duas mulheres falam de seus desejos – depois compreendi. Todo dia ela passava pontualmente em frente à nossa casa às sete e meia, logo depois do leiteiro e do carvoeiro. Ia orgulhosa em direção ao hospital, vestindo seu uniforme branco engomado e seu baú de couro negro com poções e elixires, como dizia. Eu acordava bem cedo e me vestia apenas para que ela me dissesse - Bom dia, bonita. Minha mãe às vezes nos levava à sua casa para entregar-lhe os vestidos terminados. Tudo ali era organizado, perfumado. Queria ser igual a ela, viver uma vida assim. Por algum tempo acreditei que a Medicina pudesse me trazer esse glamour. Minha mãe respondia que eu não compreendia o mundo dos grandes. Sabia que ela era a namorada do presidente do hospital, um senhor cujos filhos estudavam na nossa escola – apenas não tinha conhecimento de que havia também uma esposa.
Nessa época, os filhos dos pobres e dos ricos frequentavam a escola pública. Um dia uma senhora elegante foi buscar os meninos, e eu me aproximei para saber se era a mãe da nossa cliente. Minha mãe me puxou pela orelha tão forte que pensei que me dividia em duas. Assim compreendi o significado do sigilo médico.
Quis o destino que um dos primeiros diagnósticos que realizei na vida fosse justamente o da doença do meu pai, que o levou em poucos meses. Papai, então, fabricava bolsas e cintos de couro nos fundos do sobrado onde alugava. Tinha os braços fortes e musculosos e, mesmo no inverno, trabalhava de camiseta de português, como se chamava na época a camiseta de malha sem mangas. Estava no quarto ano de Medicina quando meu pai adoeceu. Nenhum médico atinava o que ele tinha, e eu descobri que se tratava de leucemia. A confecção faliu e nos levou um tempo para saldar as dívidas que nos deixou. Não pude ficar com a tesoura grande de cortar couro que tanto me impressionava, não pude sequer oferecer à minha mãe uma bolsa de recordação.
Meu marido e eu nos conhecemos na faculdade. Ele era brilhante, mas muito tímido. Na realidade, fui eu que o pedi em casamento. Era o momento em que os bons partidos para as moças casadeiras estavam entre os médicos, os advogados e os engenheiros.
Quando nossa filha completou três anos, o pai e eu recebemos bolsas de estudos e fomos, toda a família, completar nossa especialização no exterior. Voltamos com propostas de trabalho irrecusáveis. Afinal, para isso havíamos feito todo o esforço. Creio que aqui começaram nossos problemas.
Sempre trabalhamos muito, também por necessidade, também porque naquela época ainda se podia crescer com a Medicina mesmo sem ter família para apadrinhar a carreira. Morávamos então em um apartamento minúsculo, mas tínhamos uma empregada de confiança que acompanhou nossos filhos até quase se casarem. Saíamos muito cedo, todos dois. Havia todo um país para atender, íamos para as cidades mais próximas distribuir medicamentos, oferecer serviço médico gratuito e principalmente desenvolver a idéia do médico de família. Por muitos anos meu marido se ausentou de casa mais de uma noite por semana.
Durante a gravidez do nosso segundo filho, ele aceitou a direção de um importante projeto no interior do país. Lembro na carne a dificuldade de nossa despedida. Não havia ainda uma rede telefônica ampla, e as cartas postadas dentro do território nacional levavam uma eternidade para chegar. De mais a mais, eu mal tinha o endereço das cidades por onde ele passava. Todo dia era um suplício aguardar a chegada do carteiro, que trazia notícias desatualizadas, mas que chegavam com seu cheiro e seu calor.
Guardo ainda a carta em que ele contava sobre o menino que nasceu a caminho da igreja. Eu já passava do sexto mês e não via a hora de ter meu marido de volta. Estava particularmente sensível e me sentia muito sozinha.
Era Natal e a mulher grávida de sete meses saiu para visitar sua mãe no interior do estado. Tratava-se de um vilarejo de algumas centenas de habitantes, com dois bancos num descampado que servia de praça principal, a capela, um professor, o prefeito, a mercearia e o coro. A jovem sentiu as primeiras contrações e foi levada de volta à casa paterna, onde pariu entre a mãe e a irmã. O bebê nasceu com apenas um quilograma e um prognóstico não muito otimista, mas sua vontade prematura de viver e a determinação de seu pai eram aparentemente mais fortes. Na falta do leite materno, o pai decidiu que o filho se alimentaria da teta da rapariga negra de apenas dezoito anos que havia dado à luz no mesmo dia. Os dois nenês sugavam e sugavam e ainda havia para mais. A avó improvisou uma incubadora com uma caixa de madeira forrada e acomodou para que o bebê recebesse diariamente o sol da manhã. Até o dia de hoje as festas de fim de ano me trazem lembranças dessa família que eu jamais conheci.
A emoção brotava das linhas que meu marido escrevia. Sentia junto dele, com semanas de distância, que o futuro seria possível quando também a mãe branca alimentasse o filho branco e o negro.
Compreendi que havia muita ignorância pelo interior. Como o caso da senhora já idosa que deu entrada no posto de saúde para saber se podia partir o supositório receitado antes de ingeri-lo.
Tínhamos que fazer frente a todas as despesas da casa e queríamos proporcionar a nossos filhos o que não havíamos recebido em nossa infância. Matriculamos os meninos numa conceituada escola particular e no melhor curso de inglês; os dois estudaram música e aprenderam tênis, ballet e natação. Não perdíamos um concerto para a juventude, assistíamos a todos os espetáculos em turnê pela Cidade.
Raramente busquei meus filhos no colégio, e não por falta de pedido deles, principalmente da minha filha. Muitas vezes prometia apenas para ver seu rostinho de menina sorrir, mas depois chamava para confirmar o ônibus para a volta da escola. Um dia me comprometi e esqueci, era o início das aulas e minha filha se recusava a entrar no ônibus escolar. A menina não saía do lugar, e a empregada de casa teve de buscá-la de táxi com meu filho. Eu apenas tomei conhecimento ao voltar do trabalho à noite, pois ainda não havia celular e eu estava em dia de visita familiar. Com o passar do tempo minha filha deixou de me pedir. Senti-me aliviada e triste ao mesmo tempo.
Não precisava de muito para mim mesma. Sempre soube me vestir com poucas peças no armário – um conhecimento que herdei de minha mãe. Mas sempre fiz questão de ir ao salão me pentear semanalmente. Havia a manicure que vinha a cada dez dias, que com o tempo passou a atender a minha filha também.
Não era fácil ser mulher num meio tão masculino. Depois que assumi minha primeira chefia, passei a usar apenas saia. Impunha respeito e ao mesmo tempo marcava uma linha de ação. De vestido inaugurei o Departamento de Emergência do Hospital Universitário e, mais tarde, tornei-me a primeira mulher a ingressar na Academia Nacional de Medicina; pena que mamãe já não estivesse mais. Mais de uma vez me chamaram de a dama de ferro do hospital, ao que eu sempre sorria.
A ditadura foi um dos momentos mais delicados da minha carreira. Chegavam feridos ao hospital pela porta dos fundos sem que pudesse sequer preencher sua ficha de entrada. Guardo ainda hoje segredos de pessoas que anos depois reconheci, seja por sua voz ou pelo período em que estiveram internados. O tragicômico da situação era que ambos, algoz e torturado, poder e oposição, acreditavam que eu estivesse com o inimigo. Eu era apenas uma médica no dever de sua função.
Minha luta mais difícil se travava em casa com minha filha. Não bastavam as histórias de antes de dormir, o carinho, os passeios de fim de semana e todos os doces do mundo – reinava a sensação de ausência. Às vezes saía correndo no meio do expediente só para vê-la almoçar, sentávamos, e eu explicava o meu compromisso assumido com o trabalho, mas de nada adiantava. A comida, quando não estava quente, estava fria. Ou não era saborosa. Invariavelmente chegava atrasada ao meu primeiro compromisso da tarde. Eu me perguntava se também havia sido tão exigente com minha mãe. Como ela sempre me dizia: as mãos têm cinco dedos, e cada dedo é diferente do outro; assim são os filhos também.
Os meninos se desenvolviam e cresciam em todas as suas atividades. Nunca nos deram trabalho e, de modo geral, sabiam aproveitar as oportunidades que a vida lhes oferecia. Eram alunos exemplares, bons companheiros e amigos fiéis. Nos esportes se sobressaíam. Minha filha se casou com o namorado de sua adolescência e partiu para o exterior com uma bolsa de estudos. Já meu filho se casou com uma colega de doutorado fora do país. Os dois são profissionais gabaritados e muito responsáveis. Nenhum dos dois jamais voltou – em certas madrugadas me pergunto se falhamos como pais.
Moro em um apartamento pequeno, que comprei com meu falecido marido. Esse foi seu grande e único sonho de consumo. Carros nunca lhe interessaram, nem roupas ou qualquer outro objeto. Os quadros pendurados nas paredes são presentes dos artistas que tratamos ao longo da vida, todas pessoas queridas. Alguns alcançaram fama internacional. Não pretendo me desfazer deles. São recordações de toda uma vida, prefiro deixá-los para meus filhos. Se, de certo modo, não vivemos a vida de uma família tradicional, ao menos que eles recebam de nós, em forma de arte, o que lhes tiramos na infância. A tela surrealista da rã que engole um frango numa gôndola de supermercado foi dedicada à minha filha pelo artista – espero que sirva para ilustrar uma passagem de sua infância para meus netos.
Agora o senhor me conhece melhor. Creio que já lhe contei muito por hoje. Nunca gostei de dar trabalho a ninguém, principalmente a meus filhos. Mesmo quando adoeci, tratei de me curar sozinha, com o apoio da minha irmã e de uma sobrinha adotada. Como posso fazer, doutor, para que minha filha compreenda que não lhe resta muito tempo para me perdoar?
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