Compartilho Meus Umbrais

Escrevi Umbrais enquanto vivia em Montevidéu, cidade de gente de bem e que muito me ofereceu.

Não se trata de textos autobiográficos mas, certo, algumas paragens se escondem entre as linhas dos contos.

De certo modo, Umbrais representam para mim um rito de passagem do meu eu adulto, mãe, filha e mulher.

Obrigada por me acompanhar.

Se quiser, por favor me deixe saber sua opinião.

6 de outubro de 2011

MÚSICA

Dizem que o doutor chorou uma só vez durante todo o tempo em que esteve doente.

Todos tinham terminado de almoçar, os meninos foram ao cinema, e o senhor ficou na mesa com a filha escutando música.

Eu estava na cozinha lavando meus pratos, com um ouvido na sala de jantar. A filha perguntou se ele estava satisfeito. Depois, se ele queria ouvir rádio, mas ele preferiu escutar ópera. De repente escutei um choro sentido de homem, mas não tive coragem de me aproximar. Fico perturbada de ver homem desmoronar. O doutor perguntou clarinho:

-          Até quando vou poder escutar esta música, meu Deus?

Tudo sucedeu tão rápido; ele parou logo, tirou as mãos do rosto e pediu para a filha deixar ele descansar. Coisa estranha de compreender, a cabeça dos homens – o senhor já quase não saía de casa, mal aguentava ficar sentado, sofria de frio em pleno verão, mas temia pela música. Depois a menina me explicou que era Madame Butterfly, uma ópera que o doutor gostava muito.

Quando escutava música, o doutor se concentrava. Ele esperava os raios de sol na sala de estar, quando batia forte, deitava no sofá que ficava em frente à amendoeira e mandava eu cobrir ele com uma colcha leve, porque já estava muito fraquinho e tudo pesava. Depois fechava os olhos e pedia para não ser incomodado. Podia passar horas assim. Às vezes adormecia e quando acordava voltava para o quarto. Eu aproveitava para perguntar se ele não queria um suco de fruta, algo para beliscar. Mas ele não tinha muita fome.

Não era sempre a mesma música. Na hora da faxina eu via os discos fora de lugar. Parecia tudo nome estrangeiro, a madame dizia que era música clássica, barroca, romântica. Mas eu não via nada de romântico naquilo! Gosto é gosto, como bem dizia minha mãe.

A família morava longe, na casa vivia o casal só. Mas agora estava cheia, com todos os netos que vieram para ver o avô.

O doutor sempre foi gente fina, nunca deu trabalho, falava manso, pedia as coisas com educação, mas não dava confiança. No Natal botava um dinheiro na minha mão e dizia que era para comprar uma lembrancinha para as minhas meninas. Era médico que operava, mas quando eu comecei a trabalhar já estava aposentado. No início ele passeava sozinho; depois passei a acompanhar o doutor para fazer um joguinho na esquina e tomar uma água de coco. Mas as forças já não davam mais, devagarzinho ele foi murchando e deixou de sair.

Era homem bonito, mais jovem. Minha patroa tem uma mesa na sala só com fotos dos dois, do casamento, namorando, passeando, já velhinhos – como era posudo, sô! Casar com um homem assim até dá gosto!

Ele gostava de tomar vinho e de comer creme de abacate com licor de cerejas amargas. Também apreciava muito a minha canjica de milho e a farofa de ovo com alho e salsa picadinha.

O senhor passava muito tempo no quarto e de vez em quando eu batia na porta para oferecer um lanchinho e ver se estava tudo bem. Muita gente ligava, mas ele não queria que passasse as chamadas. Era vaidoso, não deixava que ninguém encontrasse ele fraquinho; mas também podia se contaminar das visitas.

Um dia eu perguntei à madame porque os filhos não procuravam no exterior um hospital para tratar o pai. A filha era viajada, passava de país em país com a família por causa da profissão do esposo. A senhora respondeu que o marido recebia o melhor que existia em todo o mundo. Depois abriu a bolsa e leu de um papel:

“A medicina é uma mãe generosa, que alarga a existência e promove qualidade de vida. Também se equivoca. Às vezes não dispõe de solução temporal para um problema que surge. Questão de sorte, padecer do mal que a ciência domou”.

Parece que a Medicina não sabia o que fazer com a doença do meu patrão. Ele tomava tanto sangue que parecia vampiro, mas logo carecia de mais. Não tinha remédio que ajudasse, era tudo na base do furo na veia. É preciso ter muita fé – o senhor mesmo dizia. Ele gostava de saber que rezavam por ele, falava em energia. Todo dia às seis da tarde eu desfiava meu rosário, começando com as ave-marias. Nas missas de domingo eu pedia socorro a São Expedito, o santo das causas impossíveis.

Quando os filhos se foram a casa ficou muito vazia e o doutor se ressentiu. A madame trabalhava muito, mas todo dia acordava cedo para cozinhar uma comida fresquinha para o marido. Eu arrumava a casa, lavava e passava. Ficava ele e eu naquele casarão cheio de móvel antigo e quarto vazio. Quando ela chegava, eu saía.

Até que uma noite o doutor caiu no quarto e ninguém soube. Quem avisou foi uma vizinha que escutou os gritos de socorro e chamou o porteiro. Desse dia em diante minha patroa botou um acompanhante para ele. Tinha medo de que alguma coisa de ruim pudesse acontecer enquanto estivessem sozinhos.

A madame ficava cada vez mais tempo em casa, não tinha ânimo para sair. Eu dormia de vez em quando, sempre que podia. Tenho duas filhas e a rua está cheia de más intenções, não dá para dormir de touca.

O doutor nunca mais caiu. Mas os exames de sangue começaram a empiorar. A gente pedia ao laboratório para liberar o resultado do exame bem cedinho. Vinha por fax, o doutor ficava ao lado do aparelho a tarde toda, ninguém podia usar a linha até chegar o que ele esperava. Depois se fechava no quarto, mas a gente sentia que não era coisa boa. Ele nunca reclamou, mas eu conhecia meu patrão. Arrastava os chinelos, parece que o corpo ficava mais pesado. Eu segurava contra o peito a minha Bíblia e começava a ler. Que mais eu podia fazer?

Passaram o doutor para o escritório, porque a cama era mais alta. O enfermeiro dormia com ele, levava ao banheiro e ajudava com a comida. Minha patroa disse que não tinha sossego com o estranho em casa, mas não podia mais sozinha com o marido. Às vezes eu chegava de manhã e os olhos dela estavam inchados de tanto chorar e pouco dormir. Ela sentia que estava perdendo o amor da vida dela, com tudo o que ela pelejava para conseguir o sangue e as injeções do tratamento. O patrão acordava muitas vezes durante a noite e a televisão ficava ligada sem parar - eu imaginava o inferno.

Outro dia a patroa estava falando com um dos filhos. Disse que estava chegando a hora, que ele e os irmãos tinham que se preparar, que podia ser de um dia para o outro. Depois ela chamou os outros, um por um. Eu me arrepiei toda e esconjurei.

Duas semanas passaram, e todo dia eles se falavam. Até que um dia a mãe repetiu para os filhos o que o médico tinha mandado dizer, que ninguém tinha bola de cristal, mas que estava próximo.

Todo dia eu entrava para cumprimentar meu patrão; ele perguntava pelos estudos das meninas e dizia para eu prestar atenção com as más companhias. Agora ele apenas sorria, depois nem isso.

Primeiro chegou a filha mais velha. O pai estava muito cansado, já não tinha assunto para conversar, não saía mais do quarto. O enfermeiro e a filha banharam o doutor na cama. A menina encheu o quarto com fotos dos filhos e dos netos – disse que era para o pai se sentir acompanhado. O senhor não suportava mais a claridade, e aos poucos não abriu mais os olhos. Acho que ele não queria ver o que a filha via. A gente mal percebia que a garota estava em casa, ela não saía de perto da cama do pai. Molhava sua boca seca, contava histórias divertidas sobre os filhos, sobre o trabalho, dizia que era preciso ser forte - até que o pai mandou parar. Era de partir o coração.

Não tinha dia que os irmãos não se falassem, às vezes mais de vez. Os netos também chamavam. Um dia atendi um telefonema do neto maior, que chorava porque também queria vir. Outra vez foi o neto que chamou a mãe. O anjinho parece que nasceu com um problema na cabeça. Ele estava aflito para tomar o avião porque tinha que entregar dois curativos, um para curar o avô e outro para la abuela, que também estava velhinha. Diz que o menino em casa mostrava com a irmã como era para segurar o avô, com as duas mãos, devagarzinho para não cair. Ele carecia de vir e perguntava quem podia tomar o avião com ele.

A vida se transformou num perrengue, o telefone não parava de tocar, muita gente perguntava pela saúde do doutor. Eu entendi que a coisa era séria. A música da Butterfly nunca mais saiu do lugar, o senhor já não queria mais escutar. Mas eu continuava arrumando outros discos que a filha tocava para o pai.

Na sexta-feira quando eu cheguei o doutor já tinha feito o exame de sangue. Entrei no escritório para cumprimentar. Ele estava muito cansado e pedia sangue, mas já não falava coisa com coisa. Minha patroa tinha pavor de entrar e ver o esposo naquele estado. Ela soluçava sem voz, vendo a filha ajoelhada ao lado do pai. Ninguém podia chorar de verdade ao lado do patrão, porque ele não gostava. Eu pedia nas minhas orações para que o sofrimento não durasse muito.

Quando o resultado do exame chegou, deixaram um recado no telefone do chefe do banco de sangue. Ele respondeu duas horas mais tarde, depois que todos já estavam por se desesperar. A filha falou da cozinha, para o pai não escutar. O médico explicou que o sangue já não adiantava e que estava na hora de pensar em parar, a mãe já tinha sido avisada.  Mas a menina custava a aceitar. O médico dizia que era puro sofrimento, e a filha discutia. Nesta tarde, o hospital mandou avisar que não tinha sangue para o doutor. Falta doador na Cidade para tanta carência.

O telefone não parou esta tarde, chamaram da família, os amigos e o médico para contar que tinham se comunicado com outro banco de sangue. No finalzinho da tarde, quando eu já estava pronta para ir, chegaram para colher uma amostra de sangue. Foi um custo, a mocinha espetava a pele, mas estava tudo seco.

Nós duas descemos no mesmo elevador. Ela não sorria nem falava. Eu disse que o doutor merecia tratamento especial, porque era uma boa pessoa. Ela sorriu antes de partir no carro do hospital.

No dia seguinte de manhã me inteirei que o outro hospital também não tinha sangue para o meu patrão. Que a filha ligou para os irmãos e que eles estavam por chegar. A madame só fazia chorar e não arredava do sofá que ficava do lado de fora do escritório. O homem ainda pedia sangue, mas cada vez se entendia menos. A língua começou a enrolar, parou de falar e se engasgava até para tomar a água embebida no algodão.

Minha patroa preparou suco de laranja, abacate com limão, purê de batata, mas não adiantava, era tarde para o homem. Ele não teimava mais com o enfermeiro porque não queria a fralda, mas mexia a perna para mostrar que se sentia incômodo.

Os meninos estavam a caminho. Cada hora ligava um neto para saber do estado de saúde do avô. Os netos da filha mais velha me perguntavam quando voltava a mãe. Os meninos também ligaram durante a viagem. Eu atendia os telefonemas para descansar a madame e a filha, que estavam muito afobadas. Elas passavam o tempo chorando e lembrando o passado - quando a menina não estava fechada no escritório com o pai. A filha botava o pai ao corrente da viagem dos irmãos e pedia para ele esperar.

Eu não podia me afastar daquela casa, saía de noite e voltava cedinho no dia seguinte. A respiração do meu patrão piorava a cada dia. No domingo de tarde o médico veio para se despedir. E não cobrou a visita. Ele achava que não ia passar daquela noite. Explicou ao enfermeiro a situação, que depois deixou o escritório. Sentou na cadeira do quarto e conversou com a esposa e a filha. Eu me espantei da sinceridade do homem, falando diante do doutor sobre o seu fim. Também conversaram sobre a vida do médico e sobre os planos da minha patroa para o futuro, se ela não gostaria de tomar um cruzeiro pelo mar.

Gente rica é mesmo outra coisa: quem pode pensar em viajar depois de todos os gastos com o defunto? Que vergonha, falar do senhor assim.

Uma vez escutei na Igreja que a Bíblia fala de uma maldição que faz o homem querer de noite que seja dia e de dia que seja noite. Pois aquela casa não parava nem de dia nem de noite, não havia sossego. As últimas horas antes dos meninos chegarem foram muito excitadas. O pai fazia um esforço sobre-humano para estar presente quando os filhos chegassem, mesmo sem falar, sem comer e com os olhos fechados. A garota não largava o pai, pingava água na boca, massageava as mãos desidratadas, passava creme cicatrizante nas feridas, mexia as pernas e mudava o doutor de posição. De tardezinha trocamos o lençol depois do banho e perfumamos o doutor. A menina contava as horas que faltavam para a chegada dos irmãos e avisava o pai. Assim passou a noite.

Às 8 horas da manhã tocou a campainha. Estávamos todos meio acordados, meio dormidos. Eram os meninos que chegavam. Eles beijaram a testa da mãe e voaram para o escritório. Entraram todos juntos, depois cada um ficou a sós com o pai. O que eles conversaram eu não sei. Depois que o último deixou o quarto, se reuniram no salão principal. O filho advogado leu o que tinha escrito no avião e todos nos emocionamos. Cada filho tinha sua história bonita para contar, um comentário divertido sobre o pai. Todos passavam e abraçavam a mãe. Choveram telefonemas dos netos, dos quatro cantos do mundo. Passou uma hora de choro, de riso e de lembranças.

A filha que chegou primeiro se levantou para servir um café forte para os irmãos cansados da viagem. No caminho atendeu um chamado. Falou alguns minutos, sem paciência. Ela desligou o telefone e perguntou de que vizinho eram as crianças que estavam chorando, mas eu não escutava nada. Ela insistia que era um choro suave de bebê, como se estivessem longe. Eu me arrepiei toda, pensando que eram os querubins que tinham chegado para carregar meu patrão. Saí na carreira atrás da menina, que pelo jeito também pressentia alguma coisa.

O enfermeiro anotava os sinais vitais do doente e não percebeu que a respiração tinha empiorado. A menina chamou pelos irmãos e virou o pai de lado para o ar entrar nos pulmões. Chegaram todos ao mesmo tempo e falaram alguma coisa. Minha patroa fazia cafuné no cabelo prateado do marido e dizia ao pé do ouvido que amava muito ele; a filha menor, que era dona de uma voz que o pai sempre adorou, cantou sua música preferida; o filho advogado recitou uma prece de mãos dadas com o pai; o caçula agarrou a outra mão e agradeceu por tudo que o pai fez por ele; a filha mais velha, que pediu para o patrão esperar seus irmãos, liberou o pai do suplício e mandou ele partir em paz.

O doutor chorou uma só lágrima, respirou uma vez profundamente e parou. Aos poucos, os sinais de vida desapareceram e o enfermeiro decretou muito tímido que meu patrão tinha partido. O médico confirmou.

Três horas mais tarde a filha menor decidiu que era preciso trocar o pijama do pai para que ele fizesse seu último caminho arrumado, como sempre foi. O corpo já estava quase frio, duro mesmo. O que mais me espantou foi o sorriso no rosto do doutor. Que diferença do cenho franzido dos últimos meses. Ele estava feliz, distendido, ausente de toda dor e sofrimento dos anos de calvário.

Passado o enterro, cada filho seguiu seu destino, e a senhora devagarzinho foi acertando o sono da noite. Todo dia um dos filhos chamava para saber como estava a mãe, mas já não era a louquice de antes.

Durante alguns meses não se ouviu música naquela casa. Os discos ficaram esquecidos nas prateleiras. A casa era de um silêncio que vexava a gente.

Até que um dia minha patroa pediu para eu levar a radiovitrola para a sala. A madame disse que estava com muita saudade do meu patrão e que necessitava ouvir música. Eu levei a Butterfly, e ela se emocionou com o que eu contei.

Junto com o meu salário seguinte veio um cd com a música que o doutor não queria deixar de escutar. Na ceia de Páscoa eu vou ouvir com as minhas filhas.

Feliz aquele que deixa uma música para ser lembrado.

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