Sentei-me naquele corredor longo e amplo, de luz fluorescente e sofás de couro. A clínica estava em restauração e, aparentemente, não havia recursos para terminar a obra.
Chegamos pontualmente. Era inverno, de um frio penetrante que refletia meu clima interior. Posicionei-me em frente à placa que identificava o especialista com quem havia marcado a consulta. Do meu assento via todos os consultórios, quinze ao total. Clínica geral, ortopedia, neurologia, pneumologia, pediatria, obstetrícia e outros tantos. Acompanhava o intenso movimento de pacientes, funcionários e doutores.
Mais adiante, passada a metade do corredor, encontrava-se de pé uma senhora uniformizada falando ao telefone; sua postura denunciava uma função de poder. Deixei minha filha no sofá, aproximei-me e perdi meu assento.
Reconheci aquela voz, era a secretária que agendava para todas as portas do corredor. Aparentemente, a falta de privacidade de suas instalações não lhe importava. Respondia a chamadas das duas linhas telefônicas e ainda recebia o público transeunte. Aguardo respeitosamente que ela se libere para atender-me.
Seis minutos depois, impaciente com sua tranquilidade, apoio meu cotovelo no balcão que nos separa, mas não a intimido. Provavelmente já havia deixado a outros esperando, pensei. Vislumbro o vulto de uma jovem de passos rápidos que, à medida que se aproxima, entabula sem cerimônia uma conversa com a senhora, como se ignorasse minha presença. Interrompo e sou interrompida. Aprendo as normas do jogo.
Por recomendação sábia da minha falecida avó, tomei dez goles imaginários de água fresca e aguardei. Quando me foi finalmente concedida a palavra, agradeci. Havia sido encaixada entre dois pacientes - o horário seguinte disponível distava três meses de quando chamei. Aproveitei e confirmei minha consulta, que deveria ter começado quinze minutos antes.
Meia hora mais tarde e minha filha já apresentava os primeiros sinais de irritação. Depois de oito horas semi-interna em uma conceituada instituição de educação pré-escolar, não podia exigir-lhe muito. Aos cinco anos, era exposta a três línguas, recebia aulas de yoga, computação, psicomotricidade, balé, ciências, música, natação e educação física. Formava uma campeã, mas não estava segura de que criava um cidadão melhor – desafiava a escola. Era mais do que aceitável que às 17h30mim não estivesse disposta a participar de uma atividade adicional.
A porta se abriu às 17h49min e de lá saiu o primeiro paciente. Já quase me levantava quando a voz que ecoava de dentro anunciou outro nome. Disfarcei minha perplexidade e fingi me acomodar na cadeira. Somente então fui comunicada que o status da nossa consulta compreendia uma espera considerável.
Acalmei meu ímpeto, rebobinando na memória a saga para chegar ao profissional adequado. Foram semanas de consulta a conceituados terapeutas até que finalmente obtivemos uma lista selecionada, da qual extraímos três nomes. Mais algumas semanas se passaram e uma nova sugestão surgiu, desta vez definitiva. Dias de tentativas em que o telefone não respondia ou soava ocupado até que uma voz respondeu do outro lado do aparelho. Vinha munida de recomendação especial, explicava à controladora da agenda...
O orgulho me subia à cabeça. Havia perdido a tolerância para a espera. Eu e aquela fila não pertencíamos ao mesmo conjunto. Habitávamos regiões diferentes, utilizávamos meios de transporte distintos, não frequentávamos os mesmos ambientes. Mas isto, aparentemente, não era algo óbvio, nem possuía a mesma relevância para todos. Minha pequena filha, sem lugar à dúvida, desfrutava de sua companhia.
Cinco minutos para completar uma hora de consulta e o segundo paciente fechou a porta atrás de si. O ar entrava em ebulição à minha volta. E eu respirava profundamente para que o oxigênio que preenchia o vazio dos meus pulmões pudesse contrabalançar minha ânsia de partir. Mas para onde?
Este era um profissional reputado, com experiência clínica significativa. Do alto da minha ignorância, eu o imaginei arrogante e sua secretária, incompetente. Investiria em direção ao médico tão logo a porta se abrisse e me apresentaria. Mas antes que tivesse tempo de ensaiar qualquer iniciativa, a família que compartilhava o assento com minha filha adentrou o consultório, acenando com a mão um adeus de satisfação. Eram 19h54min.
Curioso, apesar do avançar dos ponteiros do relógio, as consultas seguiam com o mesmo ritmo de desestorvo. Havia uma espécie de acordo tácito de cavalheiros que aguardavam e eram aguardados placidamente. Era eu o peixe fora d’água, que não dominava o passar do tempo único que transcorria naquela ante-sala improvisada. Sempre fui mulher dinâmica, impetuosa, de agarrar o touro pelos cornos. Como havia mudado minha vida desde que começaram a me chamar Mãe... Antes, no melhor dos casos, este relato se encerraria ao entrar o primeiro paciente em consulta. Aos poucos domei a impulsividade de mulher sã; reconheço minha vulnerabilidade, a dependência do saber médico. Sento e espero.
Depois de acompanhar minha menina ao banheiro, em fase de instalação elétrica, voltamos em allegro. A fila colecionava novos pacientes pacientes, às 20h51min.
Senti a maçaneta da porta girar. A secretária estava agora dentro do consultório e preparava para ir-se quando a interpelei, já sem convicção. Com um sorriso de monge do Templo do Tempo, nos anunciou ao doutor.
Sua voz doce, quase feminina, nos convidou a entrar. Vestia um jaleco branco, monogramado. Possuía o cabelo fino e prateado, todo penteado para trás, cujo brilho denunciava o uso da tradicional ‘gomalina’. As mãos precisas talvez indicassem atividade cirúrgica.
Era um ambiente simples, quase espartano. Difícil conciliar a riqueza de conhecimento que supostamente encerrava aquele espaço com sua pobreza material. Sentamo-nos e o senhor que nos escutava era pura empatia e elogio para com minha filha. Falávamos do sucesso, das realizações, não das carências, das ausências. Sua generosidade impactava. Estavam diante de mim meu pai, meu avô, o pai da minha filha, o amigo que nunca tive, meu mestre, todos os meus deuses – em 100% de audição.
Não passaram mais de cinco minutos e a porta se abriu bruscamente atrás de nós. Ali estava um casal imponente, a senhora finamente vestida - sapatos e bolsa de couro - e seu marido a tiracolo. Apesar de meus esforços em reconstituir sua imagem, ele segue soçobrado sob as asas da mulher. Durante alguns instantes, detive-me naquelas figuras delgadas, de longo trânsito social. Nem o tom exasperado nem a postura condiziam, porém, com sua aparência externa. Aqueles mandavam, não pediam. Tampouco conheciam o valor da espera. A única que se pronunciava era ela:
- Boa noite, doutor. Esbaforida, explicou o motivo de sua visita e evocou o tempo de espera. Meu transtorno não me permitia acompanhar o que era dito. A senhora então se dirigiu a mim para saber o horário da nossa consulta – o seu era anterior. Foi o necessário para legitimar sua ação. A sala transpirava impasse.
Uma sensação de mal estar contaminava rapidamente todo o ambiente. O médico, sobressaltado, escutou toda a narração de pé. Em busca de uma solução rápida, pediu delicadamente que deixassem a sala – dirigindo-se a mim e a minha filha, já absolutamente vencidas pelo cansaço.
A situação me parecia tão surreal quanto improvável. Com o corpo embargado, arrastei as duas para fora. Voltamos aos abraços do sofá. Aos poucos, minha pequena foi se aconchegando e se apropriando das minhas coxas até que dormiu profundamente. O objeto da consulta foi nocauteado pela espera.
Novamente me via utilizando todo o peso da gravidade para me atar àquele assento. Quando pensei que a noite já havia proporcionado minha dose diária de aprendizado, uma invasão me desafia os brios. Como pode uma senhora, do alto de seus cinqüenta anos, disputar o lugar com uma menina de menos de um metro de altura - às nove horas da noite? De que servem os anos de educação? Que justiça havia no pedido médico?
Às 21h43min voltei carregando o espólio da batalha nos braços. Por indicação do doutor, deixei-a na cama de exame. Incômodo, ele se preparava para seguir do ponto em que havia sido interrompido. Eu necessitava de mais e provoquei. Ele respondeu embaraçado:
- Sabe, minha filha, você pode me apresentar os casos mais difíceis da Medicina, eu me acomodo. Quadros raros que demandam pesquisa e consulta internacional não me assustam. Mas, sinceramente, não sei como reagir diante de uma mulher histérica. Que fazer frente ao descontrole daquela senhora? Responda-me por favor. Espero que você possa desculpar minha atitude, mas não tinha alternativa.
Quantos anos de estudo seriam necessários para lidar com situações deste gênero? Pensei que também os homens que faziam esperar tinham suas limitações. Nesse momento o especialista conquistou minha confiança e passou a ocupar um novo espaço.
A consulta seguiu seu ritmo normal. Uma hora depois, quando deixávamos o corredor, a fila continuava à espera dessa grande pessoa. Saí com minha bela adormecida e duas receita preenchidas. Uma delas prescrevia o concerto para cello de Dvorak, se possível interpretado por Mstislav Rostropovich.
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