Compartilho Meus Umbrais

Escrevi Umbrais enquanto vivia em Montevidéu, cidade de gente de bem e que muito me ofereceu.

Não se trata de textos autobiográficos mas, certo, algumas paragens se escondem entre as linhas dos contos.

De certo modo, Umbrais representam para mim um rito de passagem do meu eu adulto, mãe, filha e mulher.

Obrigada por me acompanhar.

Se quiser, por favor me deixe saber sua opinião.

6 de outubro de 2011

HERANÇAS E LEMBRANÇAS

Nasci, cresci e me casei na mesma casa. Depois parti.

Conhecia parcialmente meu destino no momento em que recebi a certidão de casamento nas mãos. Tornar-me mulher de um diplomata implicava acompanhar meu marido mundo afora, segundo os desígnios de seu Ministério. A função diplomática transforma, de certo modo, toda a família em cúmplice na missão representativa, o ofício do meu marido envolve um modo de vida do qual participamos todos. Nossos meninos são os filhos do casal de diplomatas, por mais que usemos de malabarismo para manter sua privacidade. Por outro lado, nossos filhos se acostumaram a receber nossos convidados e desfrutar de sua companhia, aprenderam a conviver com o alvoroço de uma residência anfitriã que, periodicamente, recebe cerca de 100 pessoas. Parte importante das minhas experiências pessoais está intrinsecamente vinculada à minha vivência dentro do marco diplomático.

Diferente do que ocorre com o titular da função, não conheço um manual propriamente dito para a formação do cônjuge de um diplomata. A experiência, a fortuna de conhecer no meio alguém que inspire um modelo de conduta – e o bom senso em âmbitos gerais – moldam o que se transforma em comportamento adquirido. Tive o privilégio de cruzar com algumas mulheres e homens que me ensinaram sobre a vida diplomática, entre elas a senegalesa Fatou.

Um dos destinos mais interessantes que a sorte nos reservou foi a África, onde cheguei ignorante de toda sua sabedoria e de seu humanismo autóctone pré-colonial. Aprendi com meu marido que os africanos são um povo antigo que habita Estados Nacionais jovens. Sobrevoar as longas e extensas areias avermelhadas do deserto do Saara exercia em mim um efeito hipnotizador. A vastidão solitária do deserto me perguntava quanto verdadeiramente nos separava dos primeiros homo sapiens da savana africana.

Já conhecia, então, as principais capitais da Europa, algo das Américas e inclusive o Magreb, mas nunca havia pisado terras da África Subsaariana, habitada por uma população majoritariamente negra. Não podia imaginar que se pudesse pensar tão diferente, vestir e consumir sabores tão distintos. O capítulo africano de nossas vidas me estimulou a redescobrir minhas origens, o Brasil e suas imigrações e, principalmente, a compreender o conceito antropológico da relativização. O mundo visto dessas terras possuía uma verdade própria, uma forma de raciocínio original e um tempo extraordinariamente elástico.

Volto à Fatou, uma princesa do universo tradicional africano, cujo marido exercia uma importante função no campo dos negócios, o que o levava a Genebra e a Paris quinzenalmente. A realeza tem um andar próprio – assim reconheci Fatou quando ela apenas pisou os salões da residência da embaixatriz, em uma tarde de beneficência. Mulher alta, de sorriso expansivo, segura de cada centímetro de seu corpo portentoso. Ela tinha um olhar condescendente, generoso e divertido. Normalmente usava trajes longos, às vezes multicoloridos, às vezes de cores fortes únicas com detalhes bordados em prata ou em dourado; na cabeça, o tecido se transformava em um adorno, uma touca que terminava com um laço que pendia displicentemente para o lado – um vestuário proibido para as peles mais claras, que vez por outra se deixavam tentar pelo estilo africano.

Assim que a vi, aproximei meu copo em sua direção. O protocolo ocidental, normalmente um freio para o trânsito social dos convivas africanos em recepções formais, não a intimidava. Quinze minutos de conversa foram o suficiente para nossa primeira inconfidência: havia racismo também na sociedade africana. Experimentei um grande choque. Fatou me explicou que se referia ao preconceito dos brancos em relação aos negros. Quem ousaria se aventurar por esse continente munido de julgamentos de prejuízo?

Os cônjuges dos diplomatas, quando em função no exterior, geralmente se agrupam com a dupla finalidade de sociabilizar e realizar ações sociais. Participando nessas associações, aprendi que, paralelamente ao poder formal, oficial e normalmente masculino em sua forma de condução, existe uma margem de manobra feminina, sutil, um espaço conduzido geralmente por mulheres, cônjuges de políticos, de diplomatas e de outros profissionais que, se não conseguem modificar políticas oficiais ou assinar decretos, matizam a realidade. Conscientes de nossas forças, promovemos uma série de encontros do grupo que incentivavam cruzar fronteiras culturais. 

Fatou e eu nos tornamos grandes amigas. Mais de uma vez ela estendeu seu precioso tapete de orações, cuja bússola incrustada lhe ajudava a identificar a direção de Meca, e me ofereceu a casa como teto para minhas orações. Eu respondia amém às suas preces.

A África me ensinou a comer com as mãos. A imagem de cidadãos sentados ao chão em volta de uma grande bacia de comida era um símbolo evidente de pobreza e de falta de higiene – este era meu pré-conceito. Aos poucos, a proximidade e o convívio diário com a realidade local me encheram de coragem para insistir com minha amiga que me convidasse a um almoço tradicional. Passaram meses até que ela finalmente se deixou convencer. Antes conheci sua família, dançamos com mulheres dos cinco continentes um baile africano e fui apresentada a um marabout, sem notificação prévia.

Amanheceu o tão esperado dia, e Fatou me pediu para chegar mais cedo, o que não seria atípico - levando-se em consideração nossa insaciável necessidade de conversar. Sentei-me no amplo salão principal e conversei com sua mãe, uma senhora distinta, com os ares do campo presentes na simplicidade do seu vestuário e de seu comportamento; minha amiga desceu as escadas cinco minutos mais tarde. Havia certo desconforto no ar, que eu atribuía à experiência de compartilhar a mesa africana comigo. A conversa não fluía, mãe e filha se dirigiam a palavra no dialeto de sua tribo, Fatou controlava o passar do tempo com ansiedade, até que a campainha soou. O ambiente se tornava mais e mais misterioso.

A anfitriã se levantou com a chegada do senhor alto e delgado, que vestia um conjunto de túnica e calça comprida de cor turquesa e na mão carregava uma pasta de couro preta semelhante às que usam os médicos quando em consulta domiciliar. Fatou beijou-lhe a mão livre e nos apresentou. Era um sacerdote muçulmano, um marabout de sua confiança.

O marabout é um feiticeiro dotado de poderes de vidência e de cura que se propõe a resolver todo tipo de problemas. O termo provém do marabout islâmico, um muçulmano considerado santo. Na África Subsaariana, os marabouts estão presentes não apenas no Islã, mas também nas religiões animistas, no cristianismo, no vodu e na magia.

Eu me levantei para cumprimentá-lo, ao mesmo tempo em que me perguntava a razão de sua presença. Mãe, filha e feiticeiro trocaram palavras que não compreendi e ao final do diálogo a senhora nos deixou. Intuí que o senhor fosse bendizer nossa refeição.

Minha amiga introduziu um tema sobre o qual nunca havíamos conversado. Fatou declarou sua profunda tristeza com o fato de meu marido e eu não termos filhos. Terminou suas palavras oferecendo os serviços milagrosos do marabout para curar nossa infertilidade. O processo envolvia a declamação de suras do Alcorão e alguns procedimentos mágicos secretos.

Sem muita convicção, lucubrava para concatenar as idéias, imaginava como sair daquele imbróglio sem deixar mortos ou feridos pelo caminho:

Seria rude de minha parte declinar a oferta de Fatou e deixá-la desconcertada frente a seu líder espiritual. Além de indicar uma imperdoável falta de reconhecimento à sua generosidade.
 
Tampouco poderia submeter-me a um ritual religioso sem consultar os 50% não presentes do casal. Meu marido professa sua fé dia-a-dia e se comunica com o divino em suas orações e questionamentos. Além do mais, ainda que a proposta me tentasse, sua formação cartesiana não encomendaria os serviços de um sacerdote para solucionar problemas de saúde – para isso estavam os médicos e a ciência.

Provavelmente meu corpo acompanhou as abstrações do meu pensamento, porque algo Fatou leu na minha expressão. Terminamos a breve reunião com um leve aperto de mão, depois de o feiticeiro oferecer seu cartão de visitas – que eu recebi com as duas mãos, reclinando-me levemente em sinal de respeito. Nunca mais o tema foi tocado.

A essa hora, já não havia mais apetite nem vontade de comer. Mas minha inapetência durou pouco, logo chegaram as outras convidadas e a casa voltou a sorrir. Estávamos sentadas em um salão mais íntimo, decorado com objetos que revelavam seu pertencimento ao universo africano tradicional,  permeado por peças modernas, o que criava um ambiente de tom alegremente kitsch. Enquanto conversávamos, atravessou o jardim interno da casa um jovem descalço, provavelmente um serviçal por seu aspecto, levando um bode amarrado. Fatou me decifrou a cena improvável e me explicou que o caprino simbolizava sorte. Um morador assaz original para uma mansão situada num bairro elegante de uma cidade razoavelmente moderna, pensei.

Fomos convidadas a passar à mesa. Éramos quatro, eu a única de pele rosada pálida. Sentamos em bancos relativamente baixos, estofados de um veludo macio, sem espaldar. Na mesa não havia talheres, apenas guardanapos e um singelo arranjo floral. Da cozinha chegou sua filha adolescente com uma jarra cheia d'água e uma bacia de porcelana, nos lavou uma a uma as mãos e nos secou com o ar solene de quem toma parte em um ritual. Depois de nos cumprimentar, se foi. Novo movimento da porta, era a comida que chegava numa enorme bacia de ferro: frango desossado com arroz ao molho de limão.

Passado o desconforto dos primeiros segundos, aproximei minha mão direita da boca e me deliciei com o menu que nos foi oferecido. Rapidamente aprimorei a técnica e ao final da refeição já podia comer e conversar sem me sujar. Antes de partir, minhas companheiras de mesa me perguntaram se eu compreendia o porquê do costume de comer com as mãos: Nossos filhos não devem se esquecer de que somos todos irmãos. O código de etiqueta freia a voracidade individual e cria um ambiente de fraternidade onde cada porção, implicitamente demarcada, é respeitada.

Esse me pareceu um conceito bastante saudável para uma sociedade composta por 60 etnias que se comunicam em 40 dialetos.

Saí enriquecida e satisfeita aquela tarde que passei com Fatou em sua casa.

Anos mais tarde, em tierras coloradas de outro continente, nasceram nossos dois filhos em um grande hospital da capital. Conto-lhes esta história sempre que posso, pois sua concepção em realidade aconteceu neste simpático almoço africano, com a participação de um marabout.

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