Se você me ama, não chore por mim.
Se você conhecesse o mistério insondável
Do céu onde me encontro...
Se você pudesse ver e sentir o que eu sinto e
Vejo nesses horizontes sem fim e nessa luz
Que tudo alcança e penetra,
Você jamais choraria por mim.
Estou agora absorvido pelo encanto de Deus,
Pelas suas expressões de infinita beleza.
Em confronto com essa nova vida,
As coisas do tempo passado são pequenas e insignificantes.
Conservo todo meu afeto por você,
Com aquela ternura que sempre nos devotamos.
O amor que lhe dediquei permanecerá na eternidade,
Íntegro e forte.
Pense em mim em plena alegria da vida,
Pois nesta maravilhosa morada não existe a morte.
Se você verdadeiramente me ama,
Não chore por mim.
EU ESTOU EM PAZ.
Não Chore por Mim
Oração de Santo Agostinho – Século IV
Como quase todos os dias, despertei-me naquela segunda-feira, o céu ainda escuro, guiada pelo controle remoto da minha cama. Dirigi-me ao banheiro.
Sensação de alívio. Lavei as mãos. Aquele rosto sulcado, nu, era a verdade pura. Os últimos meses, anos, haviam sido de muita tensão. O diagnóstico do meu pai, sua dor, minha dor, a falta de horas de sono – tudo cardado na pele.
O relógio cronometrava meu atraso. Terminei de me vestir, desenredei o cabelo rebelde de uma noite de sono mal dormida e levantei a cabeça para mirar-me melhor. Respirei profundamente. Fora estava minha filha ainda aninhada em minha cama, com suas mãos aconchegadas entre seu rosto e o travesseiro. Difícil acreditar que aquele bichinho indefeso e tão pequeno pudesse rugir como um leão seu descontentamento matinal – era hora de despertar a fera.
Como quase a cada manhã, necessitava criar uma solução para a crise do despertar. Apesar de sua notável agilidade, tinha de segurar-lhe a mamadeira, que nem podia estar quente nem tão fria; vestir; pentear; escovar os dentes - tudo era negociado. Meu outro menino já estava pronto, com seu sorriso feliz de menor compreensão. Vinte minutos depois, estávamos os três no umbral da porta que dava à rua; entreguei meus filhos aos (a)braços responsáveis da educação.
Aquela semana era particularmente especial. Estava às vésperas de uma viagem para encontrar meus pais que viviam no exterior. Deixaria minha jovem família e partiria só para meu destino. Era necessário pedir compreensão e atenção especial na escola para aquelas duas criaturinhas que ainda não contavam cinco dedos de idade e que ficariam em casa com o pai por catorze dias. Acreditava, por pura ingenuidade maternal, que teria capacidade de organizar o cosmo, minimizando as intempéries do período. Quanto mais corria e comprava, mais arrumava e explicava, escrevia e alertava... mais detalhes e conselhos sábios surgiam na minha lista de quefazeres. E em cada esquina havia uma nova emoção à espera de sua descarga.
Sofreria muito sua ausência, eu sabia. Deixava a casa em um equilíbrio instável, os nervos extenuados e o apoio absoluto à minha saída. Havia uma justificativa grave: a doença do meu pai. Apenas meses depois do inferno quimioterápico, seu exame de sangue novamente acusava alterações. Iniciou-se uma busca furiosa por diagnóstico, o corpo se desabrigava de seu pudor e se transformava em propriedade médica. Não há comunhão familiar que baste, trata-se do destino de UM. Por mais acompanhado que esteja, de amor, carinho, calor, conforto, os limites são claros, são as fronteiras do indivíduo. Compartilha-se o ar, a rotina alterada, a sala de espera, a informação, o olhar profissional e preciso que antecipa o calvário, mas não o corpo, nem o luxo do esquecimento temporal. Ao menos duas histórias são escritas, a do doente e a de seu acompanhante.
Cruzava o pátio da escola organizando mentalmente meu dia. Sinto que uma mão me neutraliza, me puxa para si e comunica algo grave: – O Menino morreu.
Durante os últimos meses participei da luta por esta criança, paciente de câncer desenganado por um eminente médico da capital. Depois de muito insistir em viajar com o Menino para outros centros médicos, a mãe implorava por ajuda para enviar ao menos seu dossiê ao exterior – pois nenhum colega local ousava discutir categórico juízo. Havia que cruzar céus para alcançar outras opiniões. Por intermédio de uma professora do jardim de infância dos meus filhos, o pedido chegou às minhas mãos e, das minhas, às de uma doutora de opinião muito respeitada e que viria a ser a primeira mulher a entrar na Academia Nacional de Medicina. Aceitei com desafogo sua opinião, ao mesmo tempo em que afastava a incômoda constrição que me sufocava: forneci o contato médico de um excelente hospital no exterior, desejei-lhes sorte e saúde.
Também ofereci o telefone de outra mãe e seu Garoto de nove anos. Conhecia os detalhes do caso pela avó, grande sabedora de pequenas verdades. Haviam voltado os três fazia pouco de um tratamento realizado no exterior, tudo financiado pelo seguro de saúde. Como meu pai, o Garoto vivia às custas de transfusões periódicas de sangue. Como o Menino, era energia em estado vital puro. A volta à rotina se provava mais dificultosa do que o inicialmente previsto. Gostava de jogar futebol, queria competir com seus colegas, mas não podia. Palavras complicadas em seu exame de sangue lhe quitavam força e resistência. Os colegas de classe, do clube, não o queriam no time.
Além do transplante de medula realizado, a medicina tradicional não apresentava outra opção para conservar os índices da série sanguínea vermelha - apenas as transfusões. No campo vivia um homeopata, ex-veterinário especializado em rebanho bovino, conhecedor do pasto, que mexia com ervas. Na ausência de outra alternativa, ou por necessidade extrema de agarrar-se a uma tábua de salvação – palavras do meu pai -, o Garoto tomava religiosamente suas cápsulas adubadas pelo gado – tratamento não reconhecido pela Academia de Medicina de onde residia. Alopatia e homeopatia se cruzavam apenas no sangue do Garoto.
O médico que decidiu a vida do Garoto foi o mesmo que decidiu a morte do Menino. Mas aquela vontade férrea de oito anos mal festejados se burlava do laudo médico e teimava em viver. E morreu. Por quê? Por que justo agora? Tudo se somava à minha já pesada bagagem...
... Eram três indivíduos, três famílias, três histórias de vida e uma mesma doença. Restaram dois indivíduos, duas famílias, a família órfã do Menino e a mesma doença. Quantos sorrisos inocentes estariam por desaparecer como resultado de uma racionalização impecável? A quem cabe a decisão de alocar os recursos da saúde? Quem são esses novos funcionários do Destino? Como equacionar ciência, percepção e restrições orçamentárias?
Voltei aos meus filhotes de gente duas semanas mais tarde. Depois de acompanhar meu pai em sua leitura, suas preces, em sua fé inquebrantável na sua recuperação, depois de transfundirmos sangue, de desfrutarmos de boa música, de almoçarmos juntos. Todos momentos de muita intensidade e emoção. Médico, meu pai antevia seu futuro.
Meses mais tarde soa a campainha, era a avó do Garoto, às vésperas das festas de fim de ano. Em seu braço uma pulseira que minha filha teimava em tirar. Foi meu neto que me deu, é uma lembrança dele, nunca tiro do corpo. O Garoto já não estava mais.
Restava meu pai e seus setenta e dois anos. Duas famílias órfãs, a nossa, e a luta contra a mesma doença.
Um ano mais tarde, algumas visitas depois, o corpo do meu pai sensivelmente enfraquecido, e a mesma esperança férrea de seguir. A anemia profunda lhe subtraía as poucas forças que ainda lhe restavam. Era o começo do último fim.
Recebo um telefonema, a voz exasperada da minha mãe clama a presença dos filhos. Já em viagem tirei o bloco, a lapiseira, e deixei que a mão escrevesse livremente o que sentia.
Querido pai, onde está você?
Sinto saudades, ligo em hora errada e te encontro dormindo. Quero me aproximar, quem me dera poder carregar um pouco da tua dor, do teu medo, da tua ausência...
Queria que você soubesse o quanto te admiro. Nossas noites em casa passadas em família, lendo contos, escutando música erudita no escuro; o despertar de domingo ao som de música clássica e as grandes noites de ópera. O gosto pela boa leitura, meu primeiro livro com dedicatória, seguido de tantos outros... O prazer da boa mesa, das viagens realizadas.... E agora pai, para onde vamos?
O apoio incondicional, a aceitação e o amor verdadeiro, a certeza do reconhecimento. Tantos caminhos cruzamos, quantos desafios e dificuldades atravessei com a tua mão dada à minha. Graças à tua generosidade cresci, tornei-me mulher e você esteve presente quando meus filhos nasceram. Quando duvidei de mim mesma, quando errei, quando não sabia que rumo tomar, você esteve lá. Também saberei perdoar as fraquezas dos meus filhos, suas imperfeições?
...
Duas horas mais tarde, aterrissei. Aproximei-me de seu penúltimo leito. Seus olhos, cerrados, já não queriam mais ver. Tampouco queriam escutar minha pequena carta. Passamos sua última semana juntos, eu falava, mimava, umedecia sua boca, escolhia a música que íamos escutar. Ele estava imerso em algum caminho que começava a trilhar.
Hoje somos três famílias e três histórias.
Batem à porta. É uma minúscula carta em papel plastificado. Começa assim:
Se você me ama, não chore por mim...
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