Rua da minha infância. A Cidade deixava de ser capital federal e, orgulhosamente, preparava-se para exercer sua verdadeira vocação cultural e artística. Seguia inspirando e produzindo suas musas e a própria cultura nacional. Aí escutei meus primeiros acordes, minhas primeiras histórias de carnaval.
Sou neta de imigrantes de terras longínquas. Chegaram ao subúrbio após a Primeira Guerra. Os trópicos nunca deixaram de ser algo exótico na vida dos meus avós: o calor e a profusão das cores, presentes inclusive na pele da população; conta-se sobre meu avô materno que, recém-chegado, tocava a pele dos transeuntes para certificar-se de que não se tratava de pintura negra. A sensualidade explícita feminina, o requebrar dos quadris mulatos e o movimento alternado das nádegas inspirando a marcação dos tambores; o ritmo, os odores e o ruído da rua, a fartura dos sabores e a riqueza dos aromas da culinária caseira ora lhes causava estranhamento, ora curiosidade.
Criei-me sob as histórias do carnaval de antigamente, quase podia tocar com minha imaginação o “livro de ouro” de contribuições da Escola de Samba vizinha à infância da minha mãe, cheirar o couro do gato queimando, antes de resignar-se a seu destino de tamborim. Nascidos no país, meus pais rechearam nossa infância com marchinhas e temas de carnaval “lalareados”. Minha mãe também sambava com os braços e as cadeiras. Creio que fomos nós os primeiros da família a nos fantasiar – meus primos, meu irmão e eu. As primeiras marchinhas e sambas-enredo que escutei foram quase sempre executados pela Banda. Um palco era montado na praia, e a música seguia até a madrugada. A Banda saía religiosamente às quatro da tarde de sábado, e assim todos os dias, até a Quarta-Feira de Cinzas. Jogávamos confete uns nos outros, e desde nossa janela se via toda a decoração que divertidamente criávamos com os rolos de serpentina colorida. De manhã íamos à praia, aproveitando que os foliões da noite ainda descansavam; depois do almoço caseiro, voltávamos à rua. Éramos muitas famílias com crianças e adolescentes, gente do asfalto e da favela. Saíamos de baiana, melindrosa, de nega maluca e bailarina; os meninos, de pirata, fantasma e homem esqueleto. À noite nos acomodávamos no parapeito da janela para ver o movimento dos maiores. Meus pais normalmente saíam, e nós acompanhávamos seus passos antes que desaparecessem na paisagem. A rua mudava e se transvestia à medida que as horas passavam. Enquanto isso, o desfile das escolas de samba avançava na avenida do Centro da Cidade.
Tradicionalmente acompanhávamos pela tv o desfile, que durava toda uma noite, sempre torcendo pela mesma Escola de Samba. Recordo o misto de admiração e inveja que senti quando descobri que nossos vizinhos já haviam adquirido uma tv colorida. Às vésperas do carnaval, no hiato de um sinal de trânsito vermelho, vendedores ambulantes disputavam o mercado dos que ainda não possuíam a novidade autêntica, gritavam enquanto desfilavam por entre os carros suas películas de plástico transparente colorido. Nunca cheguei a compreender como aquelas listas coloridas, que mais pareciam um arco-íris endireitado, podiam se misturar e copiar a realidade coladas à tela da televisão.
Todo nosso entorno era diferente, ainda havia casas e edifícios baixos, o Morro quase não tinha casas de alvenaria. Nosso bairro era chique, o prédio onde morávamos era considerado de luxo e oferecia uma vaga de garagem original. A avenida litorânea não era o grande paredão de hoje em dia, e ainda era possível escutar as ondas do mar nos fundos de nosso apartamento.
Já não vivo mais na rua da minha infância. No lugar da pequena construção vizinha ao nosso prédio, hoje existe um enorme edifício com alguns apartamentos por andar e provavelmente mais vagas na garagem que banheiros. Em vez da arrebentação das ondas, hoje escutamos o chegar e o partir dos carros das garagens sem fim. Na área de serviço ensolarada de quando era criança, a roupa se espreguiça por dias até secar-se.
Fui somando anos, e assim meus pais. Minha menina já conta quatro carnavais, todos vividos na rua da minha infância. Apenas ela se fantasia em uma produção esmerada que só a vovó faz. Depois do trauma do ano passado em que saiu de bicho híbrido - metade galinha, metade rã -, este ano ela decidiu sua própria fantasia.
Assistimos o carro elétrico passar com o puxador da escola de samba dos meus avós cantando, entre outros, a marchinha Se Beber, Não Dirija! O tema foi sugerido pelo meu pai à comissão organizadora do carnaval. Ele sempre idealizou uma campanha assim. Médico do Departamento de Emergência de um importante hospital público, meu pai se fartou de testemunhar a morte e a desfiguração da juventude do país. É uma campanha civil importante, sou assomada por um calor cívico. Cada baiana que roda, cada grito de carnaval entoado, cada passagem da Banda, tudo me remete a um passado tão real quanto distante.
Depois de acompanhar o carnaval passar da nossa janela por três dias, minha menina implora para descer. Corremos ao encontro da Banda. No parapeito da janela se apóia meu pai, cansado pela doença; a seu lado está minha mãe. Distraio-me com o movimento alegre dos foliões e quando volto a buscá-los com o olhar percebo apenas o rosto do meu pai. - Mãe, cadê você? A portaria se abre, é ela. Já não somos mais todos, meu irmão vive longe, meus sobrinhos e meus primos também. E o vovô que sempre nos protegia com seu olhar generoso, ele está em cima. Abraço minha mãe, são momentos raros os nossos encontros. É o início de um novo carnaval.
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