Compartilho Meus Umbrais

Escrevi Umbrais enquanto vivia em Montevidéu, cidade de gente de bem e que muito me ofereceu.

Não se trata de textos autobiográficos mas, certo, algumas paragens se escondem entre as linhas dos contos.

De certo modo, Umbrais representam para mim um rito de passagem do meu eu adulto, mãe, filha e mulher.

Obrigada por me acompanhar.

Se quiser, por favor me deixe saber sua opinião.

6 de outubro de 2011

O FUTURO E O PASSADO

Queridos amigos,

Ainda estou no oeste africano. Este é um bonito país. Na Capital existem pelo menos duas grandes feiras permanentes. Os brancos – diplomatas como meus anfitriões, empresários e executivos de corporações multinacionais, membros da cooperação acadêmica e outros - geralmente organizam suas compras em uma feira. Vendem-se frutas, flores e verduras, no andar térreo. Lá, as flores são exuberantes e as frutas pequeninas, mas saborosas. Os brancos lavam as verduras com permanganato de potássio, um líquido de cor violeta que meu tio farmacêutico recomendava para curar as micoses de unha. A alface do supermercado é proibitiva, a cinco dólares o pé, mas chega de avião diariamente, fresquinha do exterior. Subir as escadas é toda uma surpresa: há jóias filigranadas em ouro 18k, algumas com motivos africanos, artesanato local e alfaiataria especializada em trajes típicos.

A segunda feira é frequentada basicamente por africanos. É possível encontrar excelentes cortes de algodão, algumas roupas importadas e, principalmente, muita imitação de qualidade variável: gravatas e foulards, bolsas de grife, ternos masculinos e tailleurs para mulheres. Tudo muito colorido, absolutamente tropical. Nunca vi tanto sapato verde e bolsa cor de abóbora na minha vida.

O europeu vai atrás da produção autóctone africana, enquanto o africano se esmera em apresentar-se europeu. Os dois mercados são bem diferentes, não fosse o tempero africano que exalam. É preciso atenção para não tropeçar nos enormes panelões de arroz com molho de tomate, às vezes acompanhado da carne de alguma caça – afinal, segundo o ditado, tudo que se move é comestível! -, muito dendê e uma pimentinha ardida. Geralmente estão agachados, ao redor da caçarola, dois ou três comensais. Caminha-se praticamente por sobre as pessoas, que insistem para que você se junte ao grupo. O aroma impregna as mercadorias, os vendedores, as paredes e tudo o mais.

Outra peculiaridade é a forma de realizar a transação comercial: sem pechinchar não há venda, é toda a graça do negócio. Não existe preço fixo, o valor é resolvido entre vendedor e comprador, segundo a cara do cliente e o desejo de possuir o objeto.

Hoje, buscando pela feira um achado para meus generosos anfitriões, deparo-me com o último volume do livro Em Busca do Tempo Perdido - coisa exótica por estas bandas, ousaria afirmar.

Dentro encontrei uma carta manuscrita e não assinada, que copio a seguir. 

Bisous e até breve.

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(...)

Quando pousei meus olhos sobre os seus, minha vida mudou. Aguardávamos pacientemente na fila do Centro de Fertilidade Humana de um hospital público, ela havia chegado mais cedo. Não pude deixar de notar sua presença humilde. Era nítido também seu constrangimento. Ela evitava conversar, apenas observava, mas comunicava muito. Sentia uma necessidade urgente de conhecê-la melhor.

Um dia nos encontramos na cafeteria. Cheguei só, cruzamos olhares. Antes de obter permissão, tomei posse do lugar livre na sua mesa. Ela foi desagradável, fiz que não compreendi... Quantos dias passariam, até que identificasse o convite em seus olhos.

Nossas conversas nunca foram amenas. Comentava sobre o inverno rigoroso, e ela respondia que madrugava para enfrentar as barreiras militares. Mencionava o grande lançamento em cartaz, e ela dizia que não se conformava por entregar as sementes do seu futuro a quem denominava usurpadores das terras dos seus avós. Por mais que lançasse mão de todos os subterfúgios e fugisse às suas provocações, desembocávamos fatalmente no desaconselhável, no abismo de nossas discordâncias. Todas as justificativas que eu apresentava não eram suficientes para convencê-la da legitimidade de minha existência. Hoje não compreendo porque necessitava tanto do seu reconhecimento.

Ela sempre foi lacônica à minha curiosidade, mesmo frente à minha generosidade de detalhes. Acreditava ingenuamente que seu conhecimento a meu respeito dissolveria seu desprezo. Não podia arrancá-la do meu pensamento. Elaborava sobre sua vida, passeava no interior de sua casa, lucubrava a respeito de seu futuro, de sua intimidade. Cheguei a espreitar pela fresta da fechadura do seu quarto para descobrir o que ela lia, conhecer a paisagem que anunciava sua janela – mesmo sem conhecer seu endereço. Aparentemente, esta situação de desigualdade lhe trazia comodidade.

Irônico o destino que nos havia sido designado. Estávamos aparentemente condenados a viver juntos, inimigos em disputa, travando combates paralelos para conceber um futuro. Brincariam juntos o nosso porvir?

Imagino que a decisão madura de uma mulher de trazer uma nova vida seja precedida pela confiança implícita no futuro - de que será capaz de favorecer o crescimento do novo ser, de amá-lo e sustentá-lo. A reprodução humana assistida é um processo árduo, que requer muita determinação e perseverança. Primeiramente os exames de saúde, a ampla exposição da vida pessoal, as injeções diárias de hormônio, depois, estar à disposição, sempre calma – todo um longo teste de autocontrole e tenacidade, sem data limite pré-estabelecida.

Há grande riqueza dedicada à espera: do período fértil feminino; do resultado dos exames; e o mais difícil de todos, depois de anunciado o resultado negativo do teste de gravidez, aguardar a chegada de um novo mês e ciclo de tratamento - tempo privilegiado para repensar valores, tomar decisões. Conheci mulheres que já amavam seus filhos anos antes de engravidar, testemunhei casais que se separaram durante a espera também. Promessas murmuradas, juras sacramentadas, tudo ocorria em um espaço de tempo sentimental único, marcado pelas portas que se abriam e tragavam projetos. E às vezes devolviam sonhos realizados.

 Normalmente, as diferenças culturais e políticas perdiam relevância à medida que avançávamos na longa fila de fazer bebês. Apesar do mal-estar renovado que experimentávamos, eles e nós, a cada sessão que nos encontrávamos, rapidamente o pragmatismo vingava. Queríamos todos transmitir nossa hereditariedade, deixávamos fora do perímetro hospitalar as manchetes ensangüentadas dos jornais. Esboçávamos sorrisos. Não ela, nada diluía a paixão que a impelia a desejar o mal. Assustava-me sua capacidade de administrar simultaneamente o ódio e o amor em um momento tão sublime - ao mesmo tempo me fascinava. Ela se mantinha aferrada aos princípios da sua formação, que desfiguravam e desumanizavam o outro - eu. A força de seu espírito para despertar-se a cada manhã e depositar sua confiança justamente em quem mais desdenhava era assombrosa. Ou sinal de que o inimigo não seria assim tão cruel. Interpretar como cinismo seria não compreender a sofisticação de seu raciocínio, não reconhecer o sofrimento genuíno estampado no seu olhar.

Vivíamos sob enorme tensão. O que ela definia como força inimiga eram meus irmãos. O Estado do Mal, minha pátria. Nascemos no mesmo país, eu utilizo um passaporte, ela optou por um laissez-passer, em respeito a seu falecido pai. Seria o passado mais forte que o futuro?

Eu padecia da dor coletiva ocasionada pela perda, em que chorávamos em uníssono o assassinato desumano também de pessoas queridas que nunca conhecemos, e que nos foram apresentadas quando muitas vezes já não se encontravam. Enquanto ela e os seus acenavam com as maõs o “V” da vitória.

Habitávamos bairros diferentes da capital, dividida pelo ódio e pela obstinação. A cidade se via deformada por patrulhas do exército, que ofereciam um certo lastro de tranqüilidade à população.

Às vezes realizávamos algumas visitas semanais ao hospital. Saíamos cedo para evitar o inferno do engarrafamento matinal e invariavelmente nos encontrávamos com o formigueiro de gente na parada de ônibus, espécie de ponto de convergência da população que habitava a região. Passava o trajeto imaginando suas histórias – dos estudantes, das enfermeiras e dos doentes que depois encontrava no hospital, pais, avós e netos, namorados, quem mais?

Nunca esquecerei o dia mais difícil de todo o tratamento. Ao voltar do trabalho, tomo conhecimento da explosão ocorrida no ponto de ônibus dos meus personagens. Uma bomba humana explodiu à luz do dia, sepultando juras de amores eternos, sonhos e promessas de vida. As imagens denunciavam a tragédia todavia não contabilizada, a ansiedade imperava em meio à busca voraz por familiares e amigos perdidos no colapso da rede de celulares. A mídia não tinha permissão para divulgar os nomes das vítimas até que fossem devidamente notificadas as famílias - somávamos no primeiro momento cadáveres anônimos. Aos poucos, éramos apresentados às suas histórias, rotina e projetos por realizar. Muitas vezes era o único que restava a ser enterrado, depois de que os corpos haviam-se rasgado como papel em fragmentos que voavam a dezenas de metros.

O mundo lá fora ruía, passado e futuro enterrados num presente fatídico. E eu, com minha insignificância, pensava em como faria para cruzar com o desaparecimento desses universos na manhã seguinte. E insistia em planejar o futuro como se o presente não existisse...

O dia seguinte chegou e com ele a hora de deixar a casa. Temi cada instante do trajeto. O sinal de trânsito mudou pouco antes de atravessarmos e nos ofereceu três eternos minutos de observação. Era como se nada houvesse alterado a rotina daquele local. Não havia uma gota do sangue testemunhado pelo noticiário, e a armação de metal já havia sido substituída por um novo design e um outdoor publicitário diferente. Não fossem as coroas de flores e as velas acesas em local improvável, seria possível pensar que se tratava apenas de um pesadelo. Era uma cena surrealista e amedrontadora, resultado da luta por voltar instantaneamente à normalidade. Era como se estivessem tentando esfumar meu passado, necessitava chorar a tragédia.

O ar parecia rarefeito aquela manhã. Não havia palavras que pudessem preencher a lacuna deixada pelo terror. O pavor, a ira, o desprezo e a desconfiança assolavam tudo o que passava em seu caminho no dia em que a terra engoliu seus filhos.

Avancei pelos corredores do hospital, queria urrar-lhe minha verdade, mas nunca mais a vi. Soube mais tarde que havia se desmaterializado junto com a parada de ônibus.

Nunca desisti da minha paternidade, mesmo após anos de tentativas frustradas. Eis que, em uma tarde, batem à porta. A cegonha havia nos presenteado duas lindas gatinhas – uma clarinha e outra pintada.

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