Faltam apenas cinco minutos.
O celular toca, o número é desconhecido. Meus filhos estão no jardim de infância, e meu marido no escritório. Estou a 80km de distância de todos os meus.
Faltam cinco minutos para o início da minha apresentação. Trata-se de um treinamento intercultural proposto para executivos. O diretor da firma está presente e irá nos acompanhar durante toda a sessão. Não há janela ou luz natural, a sala é acarpetada de um azul escuro, meio sujo, meio mofado. A única saída é a porta que leva a um corredor cortado por outras portas, que por sua vez dão acesso a novas salas de reuniões quase iguais à que estou.
Afasto-me o mais que posso da sala de conferências com o aparelho pegado ao ouvido. Busco a luz nesse 31 de janeiro, dia frio, mas de muita claridade. Saio e instintivamente controlo o volume da minha voz e o tom do meu desespero. Registro as instruções que me são transmitidas do outro lado da linha pelo pediatra especializado em desenvolvimento infantil. O contraste entre a iluminação artificial e controlada do interior e a luz quente e fresca da manhã, que invade o pouco de céu aberto, anuncia o que será minha luta diária – entre o descontrole e o juízo, a tristeza e a esperança, a fé e a ignorância.
Trabalhei durante toda a gravidez até o dia da minha internação. Dei entrada no hospital com o computador ainda a tiracolo.
Sou funcionária de uma empresa global especializada em alta tecnologia. Com o crescimento da empresa e a conquista de fronteiras além-mar, surgiu a necessidade de aprimorar a comunicação dos trabalhadores entre si e entre esses e a Babel de clientes. Todo um esforço foi coordenado adicionalmente para mapear os diferentes valores e sentimentos dos indivíduos envolvidos. Analisou-se a cultura dos funcionários e das diferentes áreas da corporação; o mesmo estudo foi realizado nas empresas de nossos clientes, levando-se em consideração também as culturas nacionais relevantes, assim como as idiossincrasias do mundo hitech.
Muito rapidamente constatou-se que um dos maiores desafios da comunicação consistia em desenvolver a habilidade dos indivíduos para escutar.
Quase certamente você nunca parou para pensar no abismo que separa a ação de ouvir e o processo de escutar. Você ouve uma canção conduzindo o carro, mas tem de se concentrar para escutar música – isso me ensinava meu pai desde pequenina. Médico, ele atendia os pacientes e, ao final de cada consulta, recomendava a ária de uma ópera, o movimento de um concerto, ou ainda uma canção gospel, como parte do tratamento prescrito.
Escutar o outro implica aceitar que somos diferentes, reconhecer minha ignorância em relação ao outro, exige concentração para compreender o objetivo das palavras de meu interlocutor.
O universo hitech que eu frequentava era habitado por jovens no início dos seus trinta e marcado por um ritmo intenso em que a aceleração do tempo parecia algo real - enquanto a capacidade de escutar andava na contramão. Não raras vezes a comunicação se fazia por intermédio de um atropelamento de idéias e de palavras desencontradas. Perdia-se tempo e não raramente capital investido. É preciso desenvolver uma expertise para gerenciar equipes multiculturais que se comunicam em idiomas diferentes, de acordo com o protocolo das respectivas culturas. Normalmente esta perícia não se adquire na faculdade de engenharia ou de computação.
Vivia intensamente meu trabalho, mesmo depois de tornar-me mãe. Dissociar-me da doença do meu filho fazia sentir-me valorizada. Além de prematuro, nasceu com uma fraqueza dos músculos cuja causa os médicos não chegavam a diagnosticar. O pai e eu o levamos a muitos especialistas e, por força das circunstâncias, aprendemos uma dezena de termos médicos até então desconhecidos de nosso léxico, além de patologias das quais nunca havíamos desconfiado de sua existência. Também visitamos hospitais especializados em reabilitação infantil, vivemos a deformidade e a imperfeição – principalmente, aprendemos a valorizar a vida.
Conhecemos médicos eméritos, especialistas em diversas áreas, humanistas genuínos e ainda pobres de espírito. Lembro-me de um profissional da área de neurologia pediátrica a quem nos encaminharam. Necessitava hibernar alguns dias depois de cada consulta – fecho os olhos e me vem nítida sua imagem a avaliar meu filho com uma lupa de aumento invisível e seu sorriso quase irônico enquanto eu desfiava os progressos do menino.
Entre as pessoas que nos cercavam havia os lúcidos, os crentes e, por último, os familiares e amigos. Meu obstetra tornou-se um amigo crente. Passamos por muitas crises, uma vez, quando dei por mim, estava em seu consultório.
Mais de uma vez escutamos vozes médicas afirmarem que o diagnóstico virtual da doença do nosso bebê beneficiaria toda a família, pois anunciaria o tratamento. Eu experimentava um verdadeiro pavor em cogitar que houvesse algo efetivamente errado com nossa criação. Independente de nossa vontade, a notícia bateu à porta.
Consoante à recomendação do pesquisador especializado em desenvolvimento infantil, partimos em direção ao hospital. Nossa consulta com a especialista em genética estava agendada para menos de vinte e quatro horas depois que um um ponto de ônibus situado a meio caminho do hospital havia voado pelos ares. Passei a véspera em claro, perguntando-me se não deveria desistir do encontro e considerar-me uma mãe feliz pelo simples fato do meu filho não ter desaparecido tragicamente aquela tarde junto com outros quantos meninos.
O resultado veio à cavalo. Reconheci do outro lado da linha a voz do médico pesquisador que, na realidade, buscava meu marido. Em meio a um sincero embaraço, recomendou que entrássemos em contato com a geneticista. O que ganhava em intuição me fazia perder em estabilidade. Confirmei com o doutor o que já havia compreendido. E o que se seguiu foram instruções e burocracia.
Desligo o telefone. Até então nenhum médico havia dedicado de seu precioso tempo para nos informar ou comentar o resultado de um exame solicitado – provavelmente porque até pouco antes desse telefonema não havia o que comunicar.
É preciso dar início ao treinamento. São clientes em potencial, é preciso ganhar a nova conta.
O seminário terminou. Durante meu trajeto de volta à casa, fez-se noite escura na estrada. Meu marido me esperava em casa. A criança dormia.
Banhei-me à luz da noite e chorava minha dor. A água caía em abundância e escorria salgada por todo meu corpo. Esfregava cada pedaço de mim com força suficiente para apagar qualquer rastro do que havia sido meu dia. Com o auxílio da toalha, seco o espelho embaçado pelo vapor da água quase fervendo e da penumbra vislumbro meu cardar. Preparo-me para dormir.
Amanheceu um ano depois. O dia está bonito, o sol brilha forte no parque. Há um enorme lago com muitas espécies de aves. Sento e me permito ser seduzida pela Natureza, em suas infindáveis cores, formas e aromas. Crianças de todas as idades se debruçam sobre a pequena cerca que envolve o lago, é quase possível adivinhar os diálogos das famílias fascinadas com a vida que se descortina com tamanha beleza, simplicidade, harmonia e sofisticação. Em especial aprecio o balé dos pelicanos.
Há também uma cegonha solitária.
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