Outubro, o mar a leste e a promessa de uma temperatura mais amena. Caminha tendo como fiel companheiro o vento. Respira fundo, pausadamente, o cabelo liso acompanha o sopro de ar fresco, os olhos agradecidos pelo dom da visão, o reconhecimento do aroma que anuncia o florescer dos jasmins. Leva por sobre o corpo um suéter, a bolsa a tiracolo, os sapatos moldados por anos de serviço prestado e, na mão, surpreende-se, uma sacola. Traça mentalmente o trajeto percorrido desde cedo para descobrir sua origem, enquanto a sente roçar a perna. A alienação entre seu tronco e o braço pendente lhe carcome a existência. Avança de mão dada ao desconhecido em busca de pistas que elucidem o mistério.
Uma parede espessa e ao mesmo tempo fluida se ergue e lhe bloqueia o pensar. Aos poucos um torpor lhe acomete o corpo. De longe escuta um ruído brusco e compreende que está estirada no meio-fio.
Provavelmente a primeira parede que conheceu conformava os limites de seu quarto. Deitada, arregimenta cada músculo de seu corpo para colocar-se de gatinhas e logo ensaiar o que viria a ser sua primeira escalada. De pé, as mãos apoiadas contra a parede, descortina-se uma nova visão de seu universo. Havia muito por descobrir desde esse novo ângulo.
Que seria pouco mais de meio metro frente à altura daquela parede gigante! Sua flacidez de mulher vivida e os limites da racionalidade madura se burlam hoje do prazer experimentado em sua primeira grande conquista.
À medida que somava centímetros as paredes cresciam, havia novos desafios a ultrapassar. Adolescente, refez a decoração de seu quarto. Um pôster não emoldurado com as inscrições invertidas passou a ocupar o lugar da antiga gravura clássica. Segredos compartidos, cartas de amor, livros escondidos, sonhos proibidos – todos calados por paredes que envelheciam junto a ela. Amou, chorou, cruzou limites, fronteiras, de outros estados, países, sempre uma nova mulher.
Engravidou longe de casa. Sua mãe chegaria para o nascimento acompanhada de uma grande valise que continha um mundo de sonhos de avó. Que a maternidade não doesse, que educar fosse fácil, que a saúde se mantivesse inquebrantável, que aprender com a experiência alheia fosse possível, que ser feminina lhe viesse naturalmente - todos desejos mesclados a roupas delicadamente perfumadas, à manta de fustão há gerações na família, uma rã e uma galinha de porcelana pintadas à mão, e um delgado sapatinho de cristal que pudesse calçar seu futuro feliz.
Compreendeu a dimensão das paredes de seu útero quando emprenhou. Sentiu-se fêmea, capaz de gerar o sublime. Testemunhou como se desfigurava seu corpo quase esbelto, alterava-lhe o humor e o paladar. Não havia proteção maior, abrigo mais generoso para a semente que germinava. Eram momentos de plenitude inexplicável, especialmente quando de dentro lhe chamavam com pequenos, mas vigorosos, golpes – um novo ser tomava forma, ganhava força.
Quando a manta de fustão aterrissou, a bebê já estava na incubadora. Chegou antes do previsto, sem aguardar a primavera, pesando pouco mais de um quilo. Compartilhou pijamas amarrotados e invariavelmente maiores do que seu minúsculo tamanho por mais de um mês antes que pudesse finalmente estrear seu guarda-roupa.
Aquele ser significava um golpe seco em seu ego, o anticlímax de uma gravidez tão idealizada. Desafiando as previsões mais confiáveis, as contrações se fizeram sentir antes do tempo, o útero não suportou mais o fardo de uma nova vida, a placenta rompeu–se, começava um caminho sem volta. Havia um antes e um depois: o sonho de dentro e a realidade de fora.
Uma parede implica separação, uma nova divisão surgia com o jorrar das águas. No início as duas eram uma, agora se somava uma a uma e se tornavam duas. Quem seria essa pessoa?
Inaugurou sua maternidade quando desviou seu rosto do pequeno milagre que apenas nascia. Tomou-lhe, todavia, 24 horas antes que lhe convencessem a subir em uma cadeira de rodas para descer à Unidade de Terapia Intensiva e conhecer sua menina. Só, de volta ao quarto, observava as novas famílias que surgiam, o movimento de recém-nascidos que instintivamente aterrissavam nas tetas orgulhosas de suas mães. Reconhecia a altivez das fêmeas guerreiras que pariam partos normais e circulavam com suas crias em berços sobre rodas depois de alimentá-las. Sua filha não possuía então capacidade para mamar, adquirida apenas nas últimas semanas da gravidez.
Obteve alta sete dias depois de dar à luz - por generosidade médica, segundo a avó da bebê, uma renomada doutora. Deixar o hospital com o abdome suturado e as mãos vazias lhe remetia ao mais profundo da terra. Nada fazia realmente sentido, nem o berço decorado onde o pequeno conjunto de lã violeta repousava, nem as noites outrora tranquilas daquele bairro de periferia. As manhãs teimavam em invadir o quarto sem vida, das bonecas sem dono, da manta esquecida, do rádio mudo. Era preciso vencer o limiar da porta, arejar o ambiente e partir em direção à incubadora, do outro lado da cidade.
Como a cada dia, chegou ao hospital pela manhã, pendurou o sobretudo, esfregou as mãos com o líquido desinfetante e vestiu o guarda-pó. Apenas então avançou pelo corredor de recém-nascidos e reconheceu sua pequena criação na incubadora. Rezou sua oração de fé e esperança. Não a retiraria ainda, seguiu em direção à extremidade da sala e, com um biombo, improvisou três paredes que lhe ofereciam exclusividade à janela estreita e comprida que descortinava a paisagem externa. O inverno seguia rigoroso fora da enorme máquina de curar, longe da temperatura regulada da sala de incubar. Nesse novo ambiente criado co-existiam o aparelho elétrico de sucção de leite materno, os vestígios da última neve no bosque e o desejo de produzir leite suficiente. Entregou humilhada seu tesouro ordenhado e retirou-se do departamento à espera que a visita médica diária terminasse.
Voltou arrastando a consciência do quilo e meio de sua cria e o peso por não produzir o mínimo para alimentá-la. Finalmente instalou-se em frente à caixa de acrílico e distraiu-se na cadeira de balanço decifrando a ficha de controle com anotações sobre o peso, a temperatura, a saturação de oxigênio, a pressão arterial e o pulso cardíaco de sua filha. Os mesmos fios que ligavam a menina aos monitores que controlavam seus sinais vitais a separavam de sua mãe - como um muro invisível, porém real.
Nesse dia em que tudo parecia tão vulgar, algo novo aconteceu. A enfermeira anunciou que a iniciaria na cerimônia de amamentar. Este foi o primeiro grande momento de sua maternidade e não teve aviso prévio. A excitação conquistou a área de quatro lajotas quadradas do Departamento de Neonatologia, e o mundo externo deixou de existir enquanto mãe, filha e enfermeira se perdiam dentro do biombo de chitão.
Desde o nascimento, fazia três semanas, nunca havia imaginado um momento assim. Quase como num primeiro encontro de intimidade sexual, a mãe se cheirava e auto-avaliava enquanto despia a camisa, pensando em como receberia sua amada. Sentada, tomou a filha das mãos da enfermeira, ao mesmo tempo em que aprendia a respeito do ângulo ideal entre a mirada materna e os olhos do bebê. A enfermeira fez a boca chegar ao bico e o extraordinário ocorreu: a boca sugou, como se nunca houvesse deixado de saber; a mãe gritou e a enfermeira chorou. No interior deste biombo a Medicina e a Maternidade caminharam juntas, do mesmo lado.
A parede branca se erguia novamente... Aos poucos lhe vinham mais lembranças, histórias de uma vida desperdiçada em batalhas perdidas. Ela se perguntava sobre o conteúdo da sacola. Os pensamentos fluíam, mas rapidamente escapavam, à medida que se despedia da faculdade de reconhecer o que deveria lembrar. Partia para uma nova viagem.
Não teve tempo para despedir-se. Transformou-se em sua filha, seus netos, a terra e as árvores que depois vieram.
Foi mulher valente, justa e vaidosa, que deixava o quarto já maquiada, pronta para atuar. Terminou seus dias olvidada por tudo o que mais apreciava. Deixou órfãos a porcelana biscuit, a baixela e o faqueiro de prata, as figuras de faiança, as toalhas da Ilha da Madeira, o que restou do jogo Saint Louis, os vasos de opalina, os tapetes tabriz e o kilim. Também o livro sobre Miró, a coleção de gravuras antigas, de netzukes, as pinturas a óleo, o casal de árvores da felicidade e os três xaxins de orquídea. Além de uma filha, uma futura nora, uma neta e três netos por nascer.
Saiu de casa protegida por um lençol de colorido desbotado e foi acomodada descalça em uma caixa estreita de paredes de madeira.
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