Compartilho Meus Umbrais

Escrevi Umbrais enquanto vivia em Montevidéu, cidade de gente de bem e que muito me ofereceu.

Não se trata de textos autobiográficos mas, certo, algumas paragens se escondem entre as linhas dos contos.

De certo modo, Umbrais representam para mim um rito de passagem do meu eu adulto, mãe, filha e mulher.

Obrigada por me acompanhar.

Se quiser, por favor me deixe saber sua opinião.

5 de outubro de 2011

PAREDES

Outubro, o mar a leste e a promessa de uma temperatura mais amena. Caminha tendo como fiel companheiro o vento. Respira fundo, pausadamente, o cabelo liso acompanha o sopro de ar fresco, os olhos agradecidos pelo dom da visão, o reconhecimento do aroma que anuncia o florescer dos jasmins. Leva por sobre o corpo um suéter, a bolsa a tiracolo, os sapatos moldados por anos de serviço prestado e, na mão, surpreende-se, uma sacola. Traça mentalmente o trajeto percorrido desde cedo para descobrir sua origem, enquanto a sente roçar a perna. A alienação entre seu tronco e o braço pendente lhe carcome a existência. Avança de mão dada ao desconhecido em busca de pistas que elucidem o mistério.

Uma parede espessa e ao mesmo tempo fluida se ergue e lhe bloqueia o pensar. Aos poucos um torpor lhe acomete o corpo. De longe escuta um ruído brusco e compreende que está estirada no meio-fio.

Provavelmente a primeira parede que conheceu conformava os limites de seu quarto. Deitada, arregimenta cada músculo de seu corpo para colocar-se de gatinhas e logo ensaiar o que viria a ser sua primeira escalada. De pé, as mãos apoiadas contra a parede, descortina-se uma nova visão de seu universo. Havia muito por descobrir desde esse novo ângulo.

Que seria pouco mais de meio metro frente à altura daquela parede gigante! Sua flacidez de mulher vivida e os limites da racionalidade madura se burlam hoje do prazer experimentado em sua primeira grande conquista.

À medida que somava centímetros as paredes cresciam, havia novos desafios a ultrapassar. Adolescente, refez a decoração de seu quarto. Um pôster não emoldurado com as inscrições invertidas passou a ocupar o lugar da antiga gravura clássica. Segredos compartidos, cartas de amor, livros escondidos, sonhos proibidos – todos calados por paredes que envelheciam junto a ela. Amou, chorou, cruzou limites, fronteiras, de outros estados, países, sempre uma nova mulher.

Engravidou longe de casa. Sua mãe chegaria para o nascimento acompanhada de uma grande valise que continha um mundo de sonhos de avó. Que a maternidade não doesse, que educar fosse fácil, que a saúde se mantivesse inquebrantável, que aprender com a experiência alheia fosse possível, que ser feminina lhe viesse naturalmente - todos desejos mesclados a roupas delicadamente perfumadas, à manta de fustão há gerações na família, uma rã e uma galinha de porcelana pintadas à mão, e um delgado sapatinho de cristal que pudesse calçar seu futuro feliz.

Compreendeu a dimensão das paredes de seu útero quando emprenhou. Sentiu-se fêmea, capaz de gerar o sublime. Testemunhou como se desfigurava seu corpo quase esbelto, alterava-lhe o humor e o paladar. Não havia proteção maior, abrigo mais generoso para a semente que germinava. Eram momentos de plenitude inexplicável, especialmente quando de dentro lhe chamavam com pequenos, mas vigorosos, golpes – um novo ser tomava forma, ganhava força.

Quando a manta de fustão aterrissou, a bebê já estava na incubadora. Chegou antes do previsto, sem aguardar a primavera, pesando pouco mais de um quilo. Compartilhou pijamas amarrotados e invariavelmente maiores do que seu minúsculo tamanho por mais de um mês antes que pudesse finalmente estrear seu guarda-roupa.

Aquele ser significava um golpe seco em seu ego, o anticlímax de uma gravidez tão idealizada. Desafiando as previsões mais confiáveis, as contrações se fizeram sentir antes do tempo, o útero não suportou mais o fardo de uma nova vida, a placenta rompeu–se, começava um caminho sem volta. Havia um antes e um depois: o sonho de dentro e a realidade de fora.

Uma parede implica separação, uma nova divisão surgia com o jorrar das águas. No início as duas eram uma, agora se somava uma a uma e se tornavam duas. Quem seria essa pessoa?

Inaugurou sua maternidade quando desviou seu rosto do pequeno milagre que apenas nascia. Tomou-lhe, todavia, 24 horas antes que lhe convencessem a subir em uma cadeira de rodas para descer à Unidade de Terapia Intensiva e conhecer sua menina. Só, de volta ao quarto, observava as novas famílias que surgiam, o movimento de recém-nascidos que instintivamente aterrissavam nas tetas orgulhosas de suas mães. Reconhecia a altivez das fêmeas guerreiras que pariam partos normais e circulavam com suas crias em berços sobre rodas depois de alimentá-las. Sua filha não possuía então capacidade para mamar, adquirida apenas nas últimas semanas da gravidez.

Obteve alta sete dias depois de dar à luz - por generosidade médica, segundo a avó da bebê, uma renomada doutora. Deixar o hospital com o abdome suturado e as mãos vazias lhe remetia ao mais profundo da terra. Nada fazia realmente sentido, nem o berço decorado onde o pequeno conjunto de lã violeta repousava, nem as noites outrora tranquilas daquele bairro de periferia. As manhãs teimavam em invadir o quarto sem vida, das bonecas sem dono, da manta esquecida, do rádio mudo. Era preciso vencer o limiar da porta, arejar o ambiente e partir em direção à incubadora, do outro lado da cidade.

Como a cada dia, chegou ao hospital pela manhã, pendurou o sobretudo, esfregou as mãos com o líquido desinfetante e vestiu o guarda-pó. Apenas então avançou pelo corredor de recém-nascidos e reconheceu sua pequena criação na incubadora. Rezou sua oração de fé e esperança. Não a retiraria ainda, seguiu em direção à extremidade da sala e, com um biombo, improvisou três paredes que lhe ofereciam exclusividade à janela estreita e comprida que descortinava a paisagem externa. O inverno seguia rigoroso fora da enorme máquina de curar, longe da temperatura regulada da sala de incubar. Nesse novo ambiente criado co-existiam o aparelho elétrico de sucção de leite materno, os vestígios da última neve no bosque e o desejo de produzir leite suficiente. Entregou humilhada seu tesouro ordenhado e retirou-se do departamento à espera que a visita médica diária terminasse.

Voltou arrastando a consciência do quilo e meio de sua cria e o peso por não produzir o mínimo para alimentá-la. Finalmente instalou-se em frente à caixa de acrílico e distraiu-se na cadeira de balanço decifrando a ficha de controle com anotações sobre o peso, a temperatura, a saturação de oxigênio, a pressão arterial e o pulso cardíaco de sua filha. Os mesmos fios que ligavam a menina aos monitores que controlavam seus sinais vitais a separavam de sua mãe - como um muro invisível, porém real.

Nesse dia em que tudo parecia tão vulgar, algo novo aconteceu. A enfermeira anunciou que a iniciaria na cerimônia de amamentar. Este foi o primeiro grande momento de sua maternidade e não teve aviso prévio. A excitação conquistou a área de quatro lajotas quadradas do Departamento de Neonatologia, e o mundo externo deixou de existir enquanto mãe, filha e enfermeira se perdiam dentro do biombo de chitão.

Desde o nascimento, fazia três semanas, nunca havia imaginado um momento assim. Quase como num primeiro encontro de intimidade sexual, a mãe se cheirava e auto-avaliava enquanto despia a camisa, pensando em como receberia sua amada. Sentada, tomou a filha das mãos da enfermeira, ao mesmo tempo em que aprendia a respeito do ângulo ideal entre a mirada materna e os olhos do bebê. A enfermeira fez a boca chegar ao bico e o extraordinário ocorreu: a boca sugou, como se nunca houvesse deixado de saber; a mãe gritou e a enfermeira chorou. No interior deste biombo a Medicina e a Maternidade caminharam juntas, do mesmo lado.

A parede branca se erguia novamente... Aos poucos lhe vinham mais lembranças, histórias de uma vida desperdiçada em batalhas perdidas. Ela se perguntava sobre o conteúdo da sacola. Os pensamentos fluíam, mas rapidamente escapavam, à medida que se despedia da faculdade de reconhecer o que deveria lembrar. Partia para uma nova viagem.

Não teve tempo para despedir-se. Transformou-se em sua filha, seus netos, a terra e as árvores que depois vieram.

Foi mulher valente, justa e vaidosa, que deixava o quarto já maquiada, pronta para atuar. Terminou seus dias olvidada por tudo o que mais apreciava. Deixou órfãos a porcelana biscuit, a baixela e o faqueiro de prata, as figuras de faiança, as toalhas da Ilha da Madeira, o que restou do jogo Saint Louis, os vasos de opalina, os tapetes tabriz e o kilim. Também o livro sobre Miró, a coleção de gravuras antigas, de netzukes, as pinturas a óleo, o casal de árvores da felicidade e os três xaxins de orquídea. Além de uma filha, uma futura nora, uma neta e três netos por nascer.

Saiu de casa protegida por um lençol de colorido desbotado e foi acomodada descalça em uma caixa estreita de paredes de madeira.

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