Compartilho Meus Umbrais

Escrevi Umbrais enquanto vivia em Montevidéu, cidade de gente de bem e que muito me ofereceu.

Não se trata de textos autobiográficos mas, certo, algumas paragens se escondem entre as linhas dos contos.

De certo modo, Umbrais representam para mim um rito de passagem do meu eu adulto, mãe, filha e mulher.

Obrigada por me acompanhar.

Se quiser, por favor me deixe saber sua opinião.

6 de outubro de 2011

DISFARCES

DISFARCES

Ela me esperava quando cheguei. Sua assistente lhe movia o braço enquanto Ela soprava uma mecha de cabelo descolorido que teimava em cair-lhe sobre a fronte. Uma poliomielite a havia atacado aos oito meses.

Seu corpo expressava uma impaciência evidente, nossa entrevista não seria fácil. Aproximei e beijei-lhe o rosto, como sempre. Sentei e não tardei por esperar que seu humor mordaz também me cumprimentasse. O limite de seus comentários sempre oscilava entre o aceitável e o agressivo. Diante de mim estava uma mulher vaidosa, inteligente, psicóloga de formação e diretora de um ateliê protegido de trabalhos manuais para adultos dotados de capacidades e dificuldades diferentes.

Ao total são trinta membros, entre homens e mulheres, alguns com retardo intelectual, outros com dificuldades motoras ou psíquicas. O grupo se encontra cinco dias por semana, da uma às cinco da tarde, e é assistido por profissionais diversos, entre os quais uma psicopedagoga, um psicólogo e uma professora formada em ensino especial. Há também os voluntários que oferecem seu tempo e idéias, todos sempre bem-vindos. O ateliê ocupa o terceiro andar de uma instituição comunitária que, além de ceder o espaço físico, também se responsabiliza pelo pagamento dos funcionários assistentes e de seus membros. Grande parte da matéria-prima utilizada é subsidiada ou doada integralmente, e a renda resultante da venda dos trabalhos finais é revertida diretamente para o ateliê. 

Nosso encontro tinha o objetivo de discutir a produção do ateliê. Ela se enchia de um orgulho crescente à medida que apresentava os objetos realizados, e eu me enterrava na cadeira; implodia meu descontentamento enquanto buscava sentido nas obras apresentadas.

Nós nos conhecíamos havia poucos meses, o suficiente para desenvolver um carinho genuíno, o respeito intelectual e a identificação de nossos destinos e histórias. Talvez por esse motivo, talvez pela função diplomática que exercia então meu marido, ou ainda porque assumi minha postura tradicionalmente crítica, minha opinião lhe importava.

A peça que eu examinava não era esteticamente resolvida, além de não cumprir com sua função. Era uma base quadrada em madeira com um baixo-relevo talhado no centro e uma vela encaixada cuja chama queimava quase à altura da madeira. Na frente da vela, e disposta em diagonal, havia uma lâmina de vidro pintada à mão. Ela pediu delicadamente à sua assistente que acendesse a pequena vela chata e a colocasse em seu lugar. Nem o vidro era estável, nem a chama da vela suficientemente alta para iluminá-lo e alcançar o efeito desejado – uma frustação revoltante me tomava o corpo.

Assumi minha condição de cliente em potencial e ofereci minha opinião. Ela pediu à assistente que recolhesse a peça. Fez sinal com o rosto, indicando uma nova direção e me convidou a uma sala mais reservada. Além dos cartazes emoldurados e das cadeiras dispostas ao longo das quatro paredes, havia apenas o ruído da rua que teimava em invadir o terceiro andar daquele edifício situado no downtown. A porta de madeira maciça se fechou atrás da mulher de aparência robusta que se chamava assistente e dominava quase toda a intimidade de minha amiga. Estávamos finalmente a sós, ela, eu e sua cadeira de rodas.

-          Nosso ateliê não tem as mesmas exigências de um espaço produtivo comum. Quem compra nossas peças reconhece a marca registrada da nossa produção - a imperfeição -, compra para ajudar o projeto. Ponto.

Ela explicava, mas já eu não tinha a mesma concentração. Comecei a me enredar na minha própria dor. Ela seguia, também dolorida por anos de sofrimento. Quando voltei, ela me contava de quando foi com seu amigo a um hotel de alta rotatividade. Os dois surtaram diante do espelho estrategicamente disposto em frente à cama king size. E não se acalmaram até a retirada do objeto grotesco de sua habitação.

-          Você tem idéia do que significa rejeitar a própria imagem refletida no espelho? É preciso educar para aceitar o outro, reconhecer a semelhança do divino em todas as suas variáveis.

Aquela enorme sala e o ar se tornando rarefeito. Era a hora da verdade, da minha verdade:

-          E o teu filho, como vai? Já explicou para as professoras? Por que esconder? De quem?

Senti uma necessidade aguda de diferenciar-me daquele ser inerte e tão potente. Ainda não havia encontrado o espelho que refletisse minha imagem de mãe de um varão portador de uma síndrome genética. Seria a de uma guerreira, rebatendo no peito toda a curiosidade e a comiseração alheia? Esmolaria piedade e compreensão à vida? Estava determinada a esconder nossa imperfeição enquanto fosse possível.

Não foram necessárias mais que frações de segundo para que povoasse minha memória a cena do pomposo neurologista avaliando meu filhote prematuro.

Havia postergado meu instinto maternal durante o período em que meu filho viveu no departamento de neonatologia do hospital. Aprender o ângulo correto para mirar o bebê durante a amamentação, como vestir, limpar corretamente e banhar. Havia inclusive um questionário orgulhosamente elaborado por uma das enfermeiras para avaliar a desenvoltura dos pais para realizar as atividades básicas que demanda um bebê recém-nascido e que devia ser preenchido por um profissional da equipe antes da alta médica.

Nossa ida para casa foi como um rito de passagem, quando deixei de ser aprendiz e passei a ser a titular. Havia finalmente deixado para trás nossos três primeiros meses de vida hospitalar.

Após a alta, começamos o controle médico periódico em uma grande e renomada instituição hospitalar. Eram maratonas bimestrais que tomavam toda a metade de um dia. Um andar inteiro do anexo hospitalar era subdividido em repartimentos modulares que serviam de pequenos consultórios da enfermaria multidisciplinar de neonatologia. O triátlon incluía um posto para pesagem e medição e seguia... com a consulta a um pediatra, um neurologista, um oftalmologista e, no caso do meu filho, também a um fisioterapeuta.

Sem dúvida, o encontro mais traumatizante era com o neurologista. Preparava a mim e a meu filho de apenas meses durante quase todo o hiato entre uma consulta e a sessão seguinte. Eu o vestia bonito, perfumava e observava, sempre em busca de seu melhor ângulo. Vivia para acreditar que tudo se resolveria, que ele ficaria bom. Era de um mal-estar indescritível sentar-me em frente ao neurologista quase debochado e responder às perguntas sobre meu pequerrucho, enquanto o protegia junto a meu peito. Depois o acomodava na cama hospitalar para que fosse examinado. Era a imagem de altivez em forma de gente examinando com seu olhar de microscópio eletrônico saudável minha pequena e hipotônica criação. Testemunhava minha impotência frente àquele tecnocrata que tocava minha cria, estimulando e avaliando suas reações segundo a cartilha neurológica. Depois o recebia de volta, vestia-lhe a roupa, enquanto aguardávamos o Doutor terminar suas escrivinhações. Concluíamos a sessão com um aperto de mão civilizado e cordial. Ao final da consulta fugia aflita com meu bebê, recompondo todos os fragmentos do meu Narciso; o eco de suas palavras seguia comigo em meus piores pesadelos.

Nunca compreendi a função daquelas sessões explícitas de sadomasoquismo médico. Muitas vezes duvidei de minhas próprias impressões. Tardei alguns anos para compreender que havia entendido tudo desde o princípio: o neurologista era defeituoso, como são os homens e as mulheres, também meu filho e eu. Sem nunca haver estudado Medicina, diagnostiquei um caso de omnipotência crônica. A diferença entre nós é que sua opinião ficaria registrada em centenas de páginas dos anais médicos daquela instituição - no dossiê do meu filho - enquanto a minha eu recém configuro como garranchos opiniáticos.

... Tirei minha longa capa de inquisidora ainda na frente da minha amiga paralisada e me despi da carapuça de semideus. Beijei sua fronte carinhosamente e voltei para casa.

Meu precioso filho e eu seguimos anônimos enquanto nos permite a manifestação de nossos sintomas.

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