DISFARCES
Ela me esperava quando cheguei. Sua assistente lhe movia o braço enquanto Ela soprava uma mecha de cabelo descolorido que teimava em cair-lhe sobre a fronte. Uma poliomielite a havia atacado aos oito meses.
Seu corpo expressava uma impaciência evidente, nossa entrevista não seria fácil. Aproximei e beijei-lhe o rosto, como sempre. Sentei e não tardei por esperar que seu humor mordaz também me cumprimentasse. O limite de seus comentários sempre oscilava entre o aceitável e o agressivo. Diante de mim estava uma mulher vaidosa, inteligente, psicóloga de formação e diretora de um ateliê protegido de trabalhos manuais para adultos dotados de capacidades e dificuldades diferentes.
Ao total são trinta membros, entre homens e mulheres, alguns com retardo intelectual, outros com dificuldades motoras ou psíquicas. O grupo se encontra cinco dias por semana, da uma às cinco da tarde, e é assistido por profissionais diversos, entre os quais uma psicopedagoga, um psicólogo e uma professora formada em ensino especial. Há também os voluntários que oferecem seu tempo e idéias, todos sempre bem-vindos. O ateliê ocupa o terceiro andar de uma instituição comunitária que, além de ceder o espaço físico, também se responsabiliza pelo pagamento dos funcionários assistentes e de seus membros. Grande parte da matéria-prima utilizada é subsidiada ou doada integralmente, e a renda resultante da venda dos trabalhos finais é revertida diretamente para o ateliê.
Nosso encontro tinha o objetivo de discutir a produção do ateliê. Ela se enchia de um orgulho crescente à medida que apresentava os objetos realizados, e eu me enterrava na cadeira; implodia meu descontentamento enquanto buscava sentido nas obras apresentadas.
Nós nos conhecíamos havia poucos meses, o suficiente para desenvolver um carinho genuíno, o respeito intelectual e a identificação de nossos destinos e histórias. Talvez por esse motivo, talvez pela função diplomática que exercia então meu marido, ou ainda porque assumi minha postura tradicionalmente crítica, minha opinião lhe importava.
A peça que eu examinava não era esteticamente resolvida, além de não cumprir com sua função. Era uma base quadrada em madeira com um baixo-relevo talhado no centro e uma vela encaixada cuja chama queimava quase à altura da madeira. Na frente da vela, e disposta em diagonal, havia uma lâmina de vidro pintada à mão. Ela pediu delicadamente à sua assistente que acendesse a pequena vela chata e a colocasse em seu lugar. Nem o vidro era estável, nem a chama da vela suficientemente alta para iluminá-lo e alcançar o efeito desejado – uma frustação revoltante me tomava o corpo.
Assumi minha condição de cliente em potencial e ofereci minha opinião. Ela pediu à assistente que recolhesse a peça. Fez sinal com o rosto, indicando uma nova direção e me convidou a uma sala mais reservada. Além dos cartazes emoldurados e das cadeiras dispostas ao longo das quatro paredes, havia apenas o ruído da rua que teimava em invadir o terceiro andar daquele edifício situado no downtown. A porta de madeira maciça se fechou atrás da mulher de aparência robusta que se chamava assistente e dominava quase toda a intimidade de minha amiga. Estávamos finalmente a sós, ela, eu e sua cadeira de rodas.
- Nosso ateliê não tem as mesmas exigências de um espaço produtivo comum. Quem compra nossas peças reconhece a marca registrada da nossa produção - a imperfeição -, compra para ajudar o projeto. Ponto.
Ela explicava, mas já eu não tinha a mesma concentração. Comecei a me enredar na minha própria dor. Ela seguia, também dolorida por anos de sofrimento. Quando voltei, ela me contava de quando foi com seu amigo a um hotel de alta rotatividade. Os dois surtaram diante do espelho estrategicamente disposto em frente à cama king size. E não se acalmaram até a retirada do objeto grotesco de sua habitação.
- Você tem idéia do que significa rejeitar a própria imagem refletida no espelho? É preciso educar para aceitar o outro, reconhecer a semelhança do divino em todas as suas variáveis.
Aquela enorme sala e o ar se tornando rarefeito. Era a hora da verdade, da minha verdade:
- E o teu filho, como vai? Já explicou para as professoras? Por que esconder? De quem?
Senti uma necessidade aguda de diferenciar-me daquele ser inerte e tão potente. Ainda não havia encontrado o espelho que refletisse minha imagem de mãe de um varão portador de uma síndrome genética. Seria a de uma guerreira, rebatendo no peito toda a curiosidade e a comiseração alheia? Esmolaria piedade e compreensão à vida? Estava determinada a esconder nossa imperfeição enquanto fosse possível.
Não foram necessárias mais que frações de segundo para que povoasse minha memória a cena do pomposo neurologista avaliando meu filhote prematuro.
Havia postergado meu instinto maternal durante o período em que meu filho viveu no departamento de neonatologia do hospital. Aprender o ângulo correto para mirar o bebê durante a amamentação, como vestir, limpar corretamente e banhar. Havia inclusive um questionário orgulhosamente elaborado por uma das enfermeiras para avaliar a desenvoltura dos pais para realizar as atividades básicas que demanda um bebê recém-nascido e que devia ser preenchido por um profissional da equipe antes da alta médica.
Nossa ida para casa foi como um rito de passagem, quando deixei de ser aprendiz e passei a ser a titular. Havia finalmente deixado para trás nossos três primeiros meses de vida hospitalar.
Após a alta, começamos o controle médico periódico em uma grande e renomada instituição hospitalar. Eram maratonas bimestrais que tomavam toda a metade de um dia. Um andar inteiro do anexo hospitalar era subdividido em repartimentos modulares que serviam de pequenos consultórios da enfermaria multidisciplinar de neonatologia. O triátlon incluía um posto para pesagem e medição e seguia... com a consulta a um pediatra, um neurologista, um oftalmologista e, no caso do meu filho, também a um fisioterapeuta.
Sem dúvida, o encontro mais traumatizante era com o neurologista. Preparava a mim e a meu filho de apenas meses durante quase todo o hiato entre uma consulta e a sessão seguinte. Eu o vestia bonito, perfumava e observava, sempre em busca de seu melhor ângulo. Vivia para acreditar que tudo se resolveria, que ele ficaria bom. Era de um mal-estar indescritível sentar-me em frente ao neurologista quase debochado e responder às perguntas sobre meu pequerrucho, enquanto o protegia junto a meu peito. Depois o acomodava na cama hospitalar para que fosse examinado. Era a imagem de altivez em forma de gente examinando com seu olhar de microscópio eletrônico saudável minha pequena e hipotônica criação. Testemunhava minha impotência frente àquele tecnocrata que tocava minha cria, estimulando e avaliando suas reações segundo a cartilha neurológica. Depois o recebia de volta, vestia-lhe a roupa, enquanto aguardávamos o Doutor terminar suas escrivinhações. Concluíamos a sessão com um aperto de mão civilizado e cordial. Ao final da consulta fugia aflita com meu bebê, recompondo todos os fragmentos do meu Narciso; o eco de suas palavras seguia comigo em meus piores pesadelos.
Nunca compreendi a função daquelas sessões explícitas de sadomasoquismo médico. Muitas vezes duvidei de minhas próprias impressões. Tardei alguns anos para compreender que havia entendido tudo desde o princípio: o neurologista era defeituoso, como são os homens e as mulheres, também meu filho e eu. Sem nunca haver estudado Medicina, diagnostiquei um caso de omnipotência crônica. A diferença entre nós é que sua opinião ficaria registrada em centenas de páginas dos anais médicos daquela instituição - no dossiê do meu filho - enquanto a minha eu recém configuro como garranchos opiniáticos.
... Tirei minha longa capa de inquisidora ainda na frente da minha amiga paralisada e me despi da carapuça de semideus. Beijei sua fronte carinhosamente e voltei para casa.
Meu precioso filho e eu seguimos anônimos enquanto nos permite a manifestação de nossos sintomas.
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