Compartilho Meus Umbrais

Escrevi Umbrais enquanto vivia em Montevidéu, cidade de gente de bem e que muito me ofereceu.

Não se trata de textos autobiográficos mas, certo, algumas paragens se escondem entre as linhas dos contos.

De certo modo, Umbrais representam para mim um rito de passagem do meu eu adulto, mãe, filha e mulher.

Obrigada por me acompanhar.

Se quiser, por favor me deixe saber sua opinião.

6 de outubro de 2011

ULTRA-SONOGRAFIA

Sou colega da recepcionista da clínica do bairro residencial onde em breve entrará a mãe da menina do supermercado.

Sou secretária do ginecologista obstetra. E adoro o meu trabalho.

Passo o dia vendo mulheres de pernas abertas ou de barriga saliente. Algumas são carecas, outras depiladas ou raspadas e há também as penteadas. Umas têm piercings, outras tatoo. Também passam pelo consultório as perfumadas. É impressionante acompanhar as transformações pelas quais passam as mulheres quando se deitam na cama de exame. Do tom de voz firme, da desenvoltura das mãos que conversam, do sorriso confiante sentado à voz tímida deitada, o olhar que se perde no teto, as mãos apoiando a nuca em busca de uma posição que lhes permita uma melhor panorâmica enquanto o lençol cobre a atividade médica.   

Antes de passar à sala de exame, o doutor conversa um bocadinho com a paciente. Dali pode surgir qualquer tema, do prazer da atividade sexual aos temas da atualidade, da dança dos hormônios às frustrações femininas. Quando o doutor se entusiasma e perde a hora, dou um jeito de interfonar para consultar sobre qualquer tema, então ele sabe que é hora de passar à etapa seguinte porque na sala de espera não tem mais cadeira. É difícil para o doutor se acostumar com a medicina moderna.

Entram donzelas, senhoritas, balzaquianas de trinta e de quarenta, adolescentes em plena puberdade, senhoras na menopausa, mulheres sexualmente ativas e inativas, ninfomaníacas, as de olhar sedutor e as famosas. O doutor é meio desligado da televisão, diz que, sem contar os documentários, é tudo perda de tempo, uma luta desalmada por audiência. Eu insisto que é importante, que se pode conhecer muito da gente pela tv. Mas o homem é teimoso e não aprende. De vez em quando chega uma artista e, antes de encaminhar a ficha, eu adianto o programa em que ela trabalha. Um dia eu me irritei e esperei para ver se ele reconhecia a cantora que tinha estado no programa de auditório do domingo anterior. Passei a ficha para o consultório sem falar nada. O doutor se desconcertou, acabou chamando a filha para saber quem era aquela mulher que enchia a boca para se apresentar.

Normalmente os machos que acompanham os barrigões chegam inchados de orgulho e embuchados também. Mas boa parte das mulheres chega sozinha.

Também tenho histórias para contar. Ontem mesmo apareceu uma mãe com o filho, o que não é muito raro por aqui. Normalmente chegam quando começam a questionar de onde vêm e como nascem. A senhora disse que queria apresentá-lo ao doutor, que foi quem fez seu parto anos atrás. Durante o exame ele se sentaria quietinho na sala de espera, pois era um menino bem-comportado – todas dizem o mesmo, depois se desculpam e me prometem um presentinho de futuro incerto.  Parece que na consulta o garoto pediu à mãe um absorvente higiênico interno feminino, porque também queria andar de bicicleta, nadar e jogar futebol com o short branco do seu time – como a menina do comercial. O doutor sorriu.

Na semana passada apareceu uma mulher desesperada que chorava sem parar; eu logo a encaixei, para não contaminar o astral da sala de espera. Conhecia bem o caso, a gravidez foi toda normal até o oitavo mês, quando o doutor teve que intervir e antecipar o nascimento do bebê. Todos os exames prometiam um futuro príncipe à família, até que as contrações se anteciparam e foi pedida uma internação hospitalar. A ecossonografia apontava problemas futuros. Uma semana mais tarde nasceu uma criança com uma hipotonia significativa, especialmente nos membros inferiores. Difícil acreditar que uma mulher tão bonita e saudável pudesse carregar dentro de si a doença também. O nenê foi revisado de cabo a rabo, consultaram neurologista, geneticista, ortopedista e pesquisadores experientes. Fizeram de tudo para chegar a um diagnóstico, desde ultra-sonografias, testes de ressonância magnética à biópsia do nervo e do músculo – mas nada ajudou. Cogitava-se inclusive uma gastrostomia para liberar o bebê do hospital. A mãe soluçava entre um gole de água e outro, e eu a abraçava. Um médico a quem a encaminharam comentou: - se a doença for o que estão desconfiando que é, espero que ela seja curta. Ah, quem me dera ter mais anos de educação para processar esse assassino de famílias! Tive ganas de fazer uma queixa ao Tribunal de Ética Médica onde trabalha minha irmã – mas o doutor não me perdoaria.

O doutor foi ao encontro da mulher na copa e a levou para o consultório. A porta se fechou antes que eu pudesse entrar. O único que escutei, quando já se despediam, é que era preciso ter muita fé e acreditar na força da vida até o fim. Que a medicina evoluía muito, mas que não conhecia tudo. Sei que a mulher mencionou a medicina alternativa, mas o doutor respondeu que não entendia de magia. Soube mais tarde que o nenê aprendeu a sugar o peito antes mesmo da alta médica.

A sala de ultra-sonografia é toda especial. A penumbra esconde a ansiedade, mas libera as expectativas. Gosto de acompanhar os casais grávidos. Especialmente no exame em que o doutor anuncia o sexo do bebê. O patrão vez por outra me olha atravessado, e eu deixo a sala.

Não canso de repetir ao doutor: existe a medicina e os médicos. O meu chefe é um grande sujeito, está sempre preocupado em acomodar situações delicadas. Hoje mesmo foi um dia interessante. No meio do expediente entrou um casal com aquele tipo de felicidade acelereda e foi direto à sala da penumbra. Era o grande dia da definição do sexo dos gêmeos. O doutor perguntou se estavam preparados para desvendar a surpresa: o marido afirmou que era um casal e a mulher se calou, acuada. Então se entreolharam e deram as mãos. Passado um tempo o homem se acomoda na cadeira ao lado do monitor do computador. O doutor anuncia que o primeiro é uma menina. O marido responde que o segundo será menino. A mulher sorri constrangida, como se tivesse um quê de responsabilidade sobre a natureza. Alguns minutos se passam em que apenas se escuta a respiração e o digitar do teclado. - O segundo é outra menina. Desta vez nem o computador distrai a decepção experimentada pelo futuro pai. A posição em que se encontra não permite à mãe consolar seu parceiro – nem com palavras nem com gestos. O doutor comenta em tom divertido:  - o senhor tem que pensar que terá no futuro três mulheres a lhe servir! O homem responde sem pestanejar: - e o que eu faço se elas forem iguais à mãe, eu é que vou servir três!

Elas se chamarão Mati & Cloti, assim decidiram.

Muitas amigas me chamam para pedir trabalho. Sabem que este é um consultório de muito movimento, com senhoras que buscam acompanhantes, bebês a caminho e mães à procura de enfermeiras e babás. Muitas vezes respondo que não sou dona de agência de empregos. Mas de vez em quando surgem pessoas que sabem trabalhar, essas eu recomendo com prazer. Ainda agora desliguei o telefone, era um conhecido oferecendo os serviços da sogra, que é enfermeira diplomada. A senhora cuida de um velhinho de mais de oitenta anos que está definhando a olhos vistos. Abandonar o paciente às vésperas do seu fim? As pessoas sempre desconfiarão de sua lealdade.

Às vezes deixo o consultório e tudo à minha volta parece fálico. A própria figura humana, os instrumentos de exame, a estante de livros, as cadeiras, a porta, o elevador, os postes de iluminação da rua, os ônibus – são todas linhas muito masculinas. Olho para as pessoas à minha volta e me pergunto em que estarão pensando. Rio, divertida, pensando em todos os segredos que guardo. Trabalho onde se cria a vida e onde nascem os sonhos. Já escutei muita loucura, inclusive atendi a um transexual com gravidez psicológica. Mas termina o dia, e eu deixo meu uniforme no armário.

Chego em casa cansada. Acendo umas velas perfumadas no chão do banheiro, apago as luzes de toda a casa e sintonizo uma FM que toque música tranquila. Ninguém me espera, tenho todo o tempo à minha disposição. A porta está aberta e fantasio. Brinco com o chuveirinho e o óleo de massagem. A água ferve na cozinha, na bancada está o pacote de sopa instantânea. Ainda de roupão janto e vou dormir satisfeita.

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