Compartilho Meus Umbrais

Escrevi Umbrais enquanto vivia em Montevidéu, cidade de gente de bem e que muito me ofereceu.

Não se trata de textos autobiográficos mas, certo, algumas paragens se escondem entre as linhas dos contos.

De certo modo, Umbrais representam para mim um rito de passagem do meu eu adulto, mãe, filha e mulher.

Obrigada por me acompanhar.

Se quiser, por favor me deixe saber sua opinião.

6 de outubro de 2011

FIM DO PLANTÃO

A noite havia sido longa na Emergência. Dois casos de bala perdida num tiroteio entre traficantes rivais; o colapso nervoso de um renomado artista por ocasião de seu vernissage; intoxicação alimentar no restaurante de um cassino clandestino; pequenas cirurgias e suturas; uma criança com múltiplas lesões e escoriações, provavelmente vítima de violência familiar; transferência de um paciente em processo de infarto do miocárdio e o procedimento burocrático envolvido; internação do parente do prefeito do município vizinho e as chamadas constantes do governador interessado por seu estado de saúde.

Somos poucos profissionais da área médica e paramédica para atender o fluxo de pacientes do hospital, mas formamos uma equipe azeitada, com muitos anos de experiência. Normalmente quem se acostuma ao serviço se torna um viciado da adrenalina e do café. Muitas vezes tomamos conhecimento das notícias no ato de sua ocorrência, outras vezes somos a própria manchete. Assim passou quando o banqueiro se acidentou com seu conversível. Ou no dia da explosão do ponto de ônibus situado nas cercanias do hospital, quando deram entrada na emergência comboios de ambulâncias com torsos humanos, braços, pernas e rostos desfigurados que choravam, além de futuros destroçados; por força das circunstâncias, o diretor do hospital transformou-se no porta-voz da instituição, enquanto do lado de fora se travava uma busca feroz por familiares; como sempre implacável, a mídia lutava para oferecer a melhor cobertura de reportagem. Outra tarde um galã foi acossado no corredor do hospital por uma fã que queria resgatá-lo do cativeiro imposto pelo vilão da novela. Quase testemunhei um crime passional no setor; já necessitei de escolta policial e quase me apaixonei. Principalmente, conheci muitas histórias e causos da Cidade.

Em noites mais tranquilas, sento-me na cafeteria e encontro os colegas. Conviver com o corpo humano desde a perspectiva cirúrgica traz um conhecimento privilegiado da nossa máquina, de sua fragilidade, dos limites tênues da vida e da Medicina. Todos guardamos segredos protegidos pela ética profissional. Algumas vezes deslizamos inconfidências apesar do juramento de Hipócrates que realizamos. Intercambiamos experiências, a maior parte das vezes sem mencionar os personagens.

Presenciamos momentos de descontrole emocional, quando as máscaras sociais se perdem, e a natureza animal responde pelas reações do homem. O machão se queixa em falsete, a bailarina perde a classe, o gerente grunhe por um atendimento diferenciado. Desconfiam da instituição e de todos os profissionais. Mais tarde se envergonham, desculpam-se pelo palavrório ou simplesmente deixam uma recordação como forma de agradecimento. Sei que saem pessoas diferentes quando deixam a emergência.

Há profissionais que se concentram principalmente nos sintomas, no diagnóstico, no quadro patológico; receiam conhecer a intimidade do paciente. Tudo para não escutar a própria alma e identificar sua finitude no outro. Contaram-me o caso de um especialista em fertilidade humana que respondeu a um casal que suas queixas sexuais não eram relevantes. Não raras vezes é mais fácil tratar a doença do que o doente. Decidi optar por outro caminho.

A medicina é uma forma de vida, foi a lição que me deixou um grande amor antes de partir. Hoje, reconheço, ela é minha amante (e não me refiro à enfermeira do terceiro andar), minha mulher, minha família toda - dependendo da situação. Choro com a mãe pela ferida de seu filho, rasgo-me com a dor do meu semelhante, sofro ao comunicar um quadro complicado - é mais forte do que eu. Acredito que minha profissão seja uma vocação, e me orgulho de poder ajudar e curar gente. Minha mulher uma noite me acusou de exaurir minha humanidade nos limites da Medicina, meus filhos se ressentem das minhas ausências – quiçá tenham razão, a paciência não é um dom infinito; sei o quanto nos amamos e por alguns meses me regenero.

Quando deixo os portões do hospital com o romper dos primeiros raios de luz, a Cidade quase toda dorme. Encontro o padeiro, o entregador dos últimos matutinos, os andarilhos e os motoristas de transporte coletivo do turno da noite em sua última viagem. Na metade do meu trajeto para casa, o sol me saúda. Respiro profundamente e deixo para trás a noite passada em branco. É um sinal de que existe esperança. Volto aliviado, não sem antes passar pelo quitandeiro e comprar pão fresco e uma mariola ou um pé-de-moleque para os meninos. É uma forma de pedir compreensão e reconhecer seu apoio – sem o qual não poderia seguir. Agradeço aos céus cada vez que retiro as chaves do carro e estico os pés na garagem, costume que aprendi com um paciente que tive a honra de atender. Ele dizia que voltar diariamente para casa são e salvo era um milagre. Hoje, que tenho família para cuidar, compreendo melhor.

Chego e é hora de despertar a casa. A cozinha é a única acordada -  já me espera com um café forte, o rádio ligado e o jornal com as notícias que não raras vezes prefiro desconhecer. Se os indivíduos que povoam os primeiros cadernos soubessem quão rápido tudo pode terminar, cuidariam mais da vida. As fronteiras entre a saúde e a doença são sutis e fáceis de cruzar, em uma trilha muitas vezes sem volta.

Ao menos uma vez ao mês me passa pela cabeça uma idéia, que em algum momento de loucura penso concretizar. Gostaria de recomendar ao Parlamento que fosse compulsória a todo jovem em processo de obtenção da carteira de motorista a visita a um centro de reabilitação para acidentados no trânsito. A vida é demasiado delicada, e essas máquinas tão possantes em mãos imaturas e velozes podem rapidamente se transformar em um instrumento letal.

Na semana passada, visitei a vítima de um acidente de carro que atendi quando apenas iniciava a carreira. Soube, então, que se tratava de um jovem estudante de Medicina, com um futuro brilhante que o aguardava na esquina. Todos os sonhos de uma família estilhaçados em frações de um tempo que se eternizou em suas seqüelas. Ele segue bonito como antes, apesar dos anos passados. Seus amigos se formaram, alguns se tornaram pais, outros deixaram a Cidade em busca de melhores oportunidades; mas a vida passa ao largo, ele salta sem maiores preocupações entre a fisioterapia e as aulas de computação. Sua imagem normalmente me vem durante a noite, quando me pergunto o que nós, toda a sociedade, perdemos com sua incapacidade: seria um pesquisador, um colega humanista, salvaria vidas, ocuparia uma função hierárquica? Questões irrelevantes, hoje.

Volto do plantão tão extenuado que evito realizar mudanças no trajeto. Passo pelo viaduto, atravesso o túnel ao fim do qual vislumbro a mata exuberante, contorno o monumento e então é só seguir até o final da avenida. Hoje, porém, saímos mais tarde e ofereci uma carona a um colega do plantão. É o chefe do Banco de Sangue do Hospital. Bom sujeito, apesar de permanentemente estressado. Há muita demanda para pouco doador, e a consequência é o estado crônico de carência de sangue da Cidade. Às vezes o escuto de passagem ao telefone, parece mais um malabarista do que hematologista. Como vive na serra e havia perdido sua condução, prontifiquei-me a deixá-lo na rodoviária. Era uma situação que justificava a mudança de itinerário e, assim, aproveitava para saber sobre as novidades institucionais. Depois tomei outro caminho, mais longo e ainda mais tranqüilo.

Ao me aproximar de casa, encontro minha mulher dependurada na janela da sala. Ela se joga sobre mim com todo seu corpo e desata num choro descontrolado. Procuro contê-la, ansioso por conhecer o motivo da erupção de tamanho vulcão. Curiosamente, percebo que os anos passaram para mim e para ela; as crianças cresceram, já são quase adolescentes. Minha mulher é uma grande companheira, sensível e muito emotiva. Generosa, praticamente criou as crianças sozinha quando eram menores, enquanto eu me embrenhava pelas matas do interior. Além de tudo, teve capacidade para desenvolver sua própria carreira de forma independente.

Somos interrompidos pelo telefone. Quem seria àquela hora da manhã? Do outro lado da linha estava um pediatra amigo. Terminado o plantão, ele segue para uma clínica vizinha à nossa casa. Normalmente deixamos o trabalho juntos; desse modo um tem a capacidade de ajudar o outro em caso de necessidade.

Antes que pudesse empreender qualquer resposta ao seu efusivo: nunca estive tão feliz de falar contigo, rapaz!, ele perguntou: você ouviu o noticiário? Sim, fazia uma hora e não havia novidades que tivessem me chamado a atenção. Minha curiosidade só aumentava: hoje não te vi no estacionamento e segui só em direção ao consultório. Justo no sinal, antes da subida do viaduto, percebi pelo retrovisor um motorista que viajava acima da velocidade permitida, costurando em ziguezague por entre as três filas de carros. Você me conhece, não meço minha virilidade no volante. Mais do que generosamente eu o deixei passar. O sinal fechou e eu fiquei. Ele se foi junto com o viaduto que desabava naquele exato instante.

Minhas pernas bambolearam como no dia em que minha mulher me perguntou se não estava na hora de casarmos. Olhei para minha ex-namorada e companheira de toda uma vida e compreendi a razão daquele corpo que soluçava. Tomei sua mão e a conduzi à varanda dos fundos para tomar um café recém-passado com o pão ainda quente. Depois acordei os meninos. Nesse dia todos começamos nossas atividades mais tarde.

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